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quarta-feira, 24 de junho de 2009

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GALIGÊNIA

Ilha de localização incerta, com cerca de doze por oito léguas. Os habitantes, que são agora mais de 100 mil, descendem todos de três exilados franceses que, depois de naufragar numa tempestade, se refugiaram nessa ilha, que acabara de emrgir do mar. Os três fundadores de Galigênia foram um certo Almont, seu filho e sua filha, que cometeram incesto a fim de criar a raça galigeniana.

Para que o resto do mundo não desse mau exemplo aos seus descendentes, Almont e seus filhos não lhes contaram nada sobre o mundo externo. Porém, por conta própria, o povo descobriu a existência de Deus, a quem adora sem igrejas e clero, e aprendeu sobre outros países com viajantes e mercadores.

Os galigenianos estabeleceram uma república governada por um parlamento de sábios, na qual tudo, inclusive os próprios cidadãos, pertence a todos. Cada mulher é esposa de todos os homens e cada homem é marido de todas as mulheres.

Todos os cidadãos, de ambos os sexos, trabalham dois dias por semana, o suficiente para satisfazer às necessidades da comunidade. Eles não sofrem de ambição, cobiça ou desejo ardente de qualquer tipo. Em anos recentes, vários grupos de dissidentes, entediados com sua sociedade impecável, tentaram criar pequenas comoções para perturbar a ordem perfeita da república. Os europeus não são particularmente bem-vindos, pois os galigenianos teme que eles tomem as terras e as civilizem do mesmo modo como os espanhóis civilizaram os índios sul-americanos.

(Charles François Tiphaigne de la Roche, Histoire des Galligènes, ou Mèmoires de Duncan, Amsterdã, 1765.)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

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image CASTELO DA FADA MORGANA

Castelo situado em algum lugar do País de Gales, moradia da irmã do rei Artur de Camelot. Outrora esposa do rei Lot de Orkney, Morgana tornou-se uma das magas mais poderosas do país e teve um filho com Artur, que dormiu com ela em Caerleon, sem que soubesse de sua verdadeira identidade. Esse filho, Mordred, estava destinado a ferir mortalmente seu pai durante uma batalha nos campos de Salisbury.

O castelo é muito rico e luxuoso. As paredes são cobertas de seda e iluminadas por uma multidão de candelabros. Os cortesãos, vestidos com trajes fantásticos, atendem aos convidados com precisão impecável.

De particular interesse para o visitante é uma câmara cujas paredes estão cobertas de pinturas que ilustram o amor ilícito de sir Lancelot e Guinevere, a esposa de Artur. Os afrescos foram executados pelo próprio Lancelot quando foi mantido preso no castelo de Morgana.

(Anônimo, La mort de roi Artu, séc. XIII)

O que chama a atenção no primeiro parágrafo é o fato de Mordred, filho de Artur com Morgana, destinar-se a matar o próprio pai. Com algumas variações, é a história de Édipo, o que só nos faz acreditar no que dizem os grandes roteiristas: há muito poucas histórias para contar. O segredo é reinventá-las.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

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EBUDA

image No Atlântico Norte, ao largo da costa da Irlanda. Seus habitantes, poucos e selvagens, mantêm um terrível costume secular: a oferenda diária de uma menina a uma orca, a baleia assassina. A origem dessa cerimônia odiosa se perde no tempo. Proteus, guardados dos rebanhos de Netuno, apaixonou-se pela filha do rei da ilha e depois a abandonou, grávida, na praia. Furioso, o rei mandou matá-la imediatamente. Para se vingar, Proteus desencadeou contra Ebuda toda a fauna marinha: orcas e leões-marinhos invadiram a ilha, destruíram os rebanhos, devoraram os homens e assediaram a cidade fortificada. Os habitantes, aterrorizados, consultaram um oráculo para saber como acabar com o flagelo. A resposta foi que deveriam oferecer todos os dias uma linda donzela a Proteus até que ele esquecesse a jovem morta, mas ele continuou inconsolável. E assim todos os dias, amarrada a um rochedo, uma donzela é devorada por uma orca. Até hoje os habitantes de Ebuda percorrem os mares em busca de lindas vítimas para Proteus e suas feras.

(Ludovico Ariosto, Orlando furioso, Ferrara, 1516; Orlando furioso, trad. Pedro Garcez Ghirardi, São Paulo, 2002)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

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CIDADE DAS DAMAS

image Pouco se sabe dessa cidade famosa, exceto que é habitada exclusivamente por mulheres que se consideram, em virtude de seu sexo, superiores aos homens. Foi construída com enormes blocos de pedra, e cada um tem inscrito o nome de uma mulher célebre: Semíramis, Amazônia, Zenóbia, Artemis, Berenice, Clélia e Fredegorida, ainda que seus feitos não sejam mais lembrados. Para que as portas da cidade se abram, a viajante deve resolver o enigma na fórmula: "Prudência, economia e procriação." Não há nenhuma outra instrução para visitar a Cidade das Damas.

(Christine de Pisan, La Cité des Dames, Paris, 1405)

É deveras uma cidade intrigante... Se não tem homem lá, em quem elas botam a culpa quando acontece alguma merda? E quem mata as baratas? Um dado significativo: as pedras ganharam nomes de mulheres cujos feitos ninguém lembra mais. Donde se vê que não fizeram grandes coisas... Todo mundo lembra o que Einstein, Isaac Newton, Bill Gates, entre outros fizeram...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

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image CIDADE DESAPARECIDA

Cidade enorme, em algum lugar sob o oceano. De longe o viajante vê apenas a água profunda, movida pelos ventos, mas, se mergulhar, verá diate de seus olhos uma cidade de tijolos. Torres, bazares, fábricas, arcos e palácios que outrora vibravam com o som de alaúdes melodiosos dão à cidade a aparência de uma hidra. Nos parques que cercam o palácio real, local em que as rainhas vinham banhar-se nuas, o visitante pode admirar os restos de um antigo cúter naufragado.

(Victor Hugo, "La ville disparue", em La légende des siècles, Paris, 1859)

quarta-feira, 13 de maio de 2009

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image CABEÇAS DE MARTELO

Cadeia de morros rochosos e áridos no extremo sul de Oz.

(Impróprios para invasões e favelas, portanto. Não adianta nenhum sociólogo se animar...)

O nome deriva de seus habitantes, que não têm braços e usam suas cabeças chatas para bater em quem se aventura por suas terras.

(A Vivid, a Playboy e a Brasileirinhas iriam à falência numa terra de homens sem braço, ou melhor, pessoas em situação de não-mão, de acordo com o linguajar das Ciências Humanas.)

Os cabeças de martelo têm pescoços elásticos: suas cabeças podem ser atiradas a uma boa distância e depois voltam rapidamente ao lugar.

Os outros habitantes de Oz os chama de Povo Selvagem. São agressivos com os estranhos, mas não existem fora dessa região elevada e, portanto, não representam ameaça aos que percorrem o restante do país.

(Agressivos com estranhos? Parece até que os cabeças de martelo têm algum parentesco com os traficantes do Rio... A diferença é que eles são uma ameaça para os moradores da cidade...)

(L. Frank Baum, The wonderful Wizard of Oz, Chicago, 1900; The Emerald City of Oz, Chicago, 1910)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

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BALNIBARBI

OBS: Os grifos em vermelho são meus. Os asteriscos indicam que eu fiz alguns comentários no final do texto.

image Ilha situada no norte do Pacífico entre o Japão e a Califórnia. A capital Lagado é um porto importante de comércio com a ilha de Luggnagg*. De Maldonada, porto do tamanho de Portsmouth, na Inglaterra, tambémn partem navios regularmente para Luggnagg.

A capital tem a metade do tamanho de Londres. Todas as suas casas estão em mau estado e são construídas de uma forma bastante peculiar. Os cidadãos vestem-se com andrajos e correm pelas ruas com os olhos arregalados. No campo, vêem-se lavradores trabalhando com uma variedade de ferramentas, mas é impossível dizer o que fazem realmente. Embora o solo seja fértil, não sinal de capim trigo ou milho.*

A pobreza que reina em Banibarbi é responsável em larga medida, pelos assim chamados projetistas. Poor volta de 1660, um grupo de pessoas navegou para Laputa* e retornou após cinco meses com conhecimentos superficiais de matemática e a cabeça cheia de ideias explosivas que adquiriram naquela região superior. Começaram imediatamente a inventar planos ou "projetos" para mudar tudo. Criou-se uma academia de projetistas de Lagado; hoje, qualquer cidade de alguma importância tem sua própria academia. Os "projetos" foram planejados para permitir que um homem fizesse o trabalho de dez, para produzir edifícios que jamais envelheceriam e para levar à maturidade todas as plantas em qualquer momento do ano. A dificuldade é que nenhum desses projetos deu resultado até agora e, enquanto isso, o país está devastado. Algumas pessoas de qualidade e projeção opõem-se aos projetistas, mas são encaradas com desprezo e má vontade e consideradas nocivas à comunidade.**

Um dos "projetos" típicos consiste em extrair raios de sol de pepinos, guardá-los hermeticamente em frascos e soltá-los quando o tempo ficar inclemente. Em outro projeto, um arquiteto inventou um método novo de construir casas começando pelo teto para terminar nos alicerces, argumentando que assim que abelhas e aranhas fazem suas construções maravilhosas.***

Na Escola de Línguas, criam-se "projetos" para simplificar a linguagem, cortando polissílabos e abandonando verbos e particípios, com o argumento de que todas as coisas imagináveis são simples nomes. Outro projetista está trabalhando na abolição de todas as palavras; afirma-se que assim as pessoas terão melhor saúde, com a redução do desgaste dos pulmões. A lógica subjacente é a seguinte: se as palavras representam coisas, seria mais conveniente que os homens carregassem consigo as coisas que queiram mencionar. Consta que esse "projeto" teria sido posto em prática se as mulheres e os analfabetos não tivessem ameaçado se rebelar, exigindo permissão para continuar falando com suas línguas, à maneira de seus antepassados. Um plano inventado para descobrir conspirações contra o governo compreende o exame da dieta dos suspeitos e a análise de seus excrementos, pois os homens nunca estão mais sérios, compenetrados e decididos do que quando defecam.****

Embora seja em si mesmo um reino, Balnibarbi faz parte do Império de Laputa, ao qual paga tributo.

(Jonathan Swift, Travels Into Several Remote Nations Of The World, In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Capitain of several Ships, Londres, 1726; Viagens de Gulliver, trad. Octavio Mendes Cajado, Rio de Janeiro e São Paulo, 1998.)

image

A Academia de Lagado, capital de Balnibarbi.

Comentários meus:

* Balnibardi, até aqui, me parece muito com a Cracolândia (pessoas andrajosas que correm de olhos arregalados) misturada com um assentamento do MST (campo fértil mas não se vê trigo ou milho. Capim até tem. Afinal de contas, os sem-terra comeriam o quê?)

** Parece até a ideia do Rio de sediar os Jogos Olímpicos. A cidade mal consegue fazer a manutenção de suas ruas, o Estado mal consegue consertar os esgotos que pululam por todos os bairros... E, no entanto, perde-se um tempo enorme com "projetos" de 30 bilhões de dólares - que chegarão fácil, fácil, a 90 bilhões... E se você disser que é contra é visto "com desprezo e má vontade". Sobretudo pelos empreiteiros...

*** Está claro que Jonathan Swift, o criador deste país por qual Gulliver viajou está ironizando os racionalistas e os cientistas, que para tudo têm uma "resposta", uma ideia genial, algo por aí. E ai de quem se opuser a algum gênio: é logo taxado como nocivo à sociedade. Não é muito diferente dos dias de hoje, onde a Ciência é quase vista como um Deus e as religiões são vistas como o Mal a ser eliminado.)

**** O Congresso Nacional que o diga...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

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ABDERA

image Cidade fortificada da Trácia, junto ao mar Egeu, notável pelos curiosos processos mentais de seus habitantes. Contam-se muitas histórias sobre o estranho uso da lógica de seu povo: quando a cidade foi dividida nos distritos oriental e ocidental, o povo do oeste reclamou que tinha perdido "seu distrito oriental", enquanto os do leste reclamaram a perda do "seu distrito ocidental".

Abdera é conhecida também por seus cavalos enormes. O melhor templo da cidade é dedicado a Arion, o cavalo que Netuno expulsou do mar com um golpe de seu tridente. Casas, navios e colunas são decorados com motivos equestres e os estábulos são considerados parte da casa e ornamentados com afrescos simples. No entanto, alguns cavalos aspiram a um grau mais alto de luxo. Uma égua, que exigira alguns espelhos para a sua baia, arrancou-os com os dentes do quarto de seu dono e depois escoiceou em pedaços painéis de madeira que não eram de seu gosto.

Um incidente famoso da história de Abdera foi a rebelião equina, quando os cavalos da cidade, dotados de uma espécie de inteligência aberrante, empinaram-se e saquearam a cidade. Mataram homens e mulas, violaram mulheres e se renderam somente quando o herói Hércules veio em auxílio dos cidadãos de Abdera.

(Anônimo, Physiolugus latinus, séc. IV a.C; Christoph Martin Wieland, Die Abderiten, Munique, 1774; Leopoldo Lugones, "Los caballos de Abdera, em Las fuerzas extrañas, Buenos Aires, 1906.)