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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

RESCALDOS DO 11 DE SETEMBRO

Eis que passamos pelo dia 11 de setembro. Motivo de orgulho: não assisti um minuto sequer aos “especialistas” da Globo News, que, aliás, já viraram motivo de chacota nas redes sociais.

O 11 de setembro já é uma data simbólica daquelas que todo mundo se lembra onde estava e o que fazia. E também é um dia para se fazer o proselitismo mais estúpido e demonstrar, com todo orgulho e todo amor a ignorância, a burrice e o antiamericanismo mais rastaquera ainda que para isso seja necessário usar equipamentos e sites criados… nos Estados Unidos.

Começo por uma frase publicada no Facebook dizendo que o maior atentado terrorista da História foi o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki – eis aí outro uso da efeméride: a disseminação de altas frases de efeito com direito a inúmeros “Curtir” e retuitadas sagazes.

Ora, mudou-se bastante o conceito de terrorismo pelo jeito. Digo que ninguém merece e nada há que justifique um país levar duas bombas atômicas no quengo. Ponto. Mas convém lembrar que Japão e Estados Unidos estavam EM GUERRA. DECLARADA. E que os americanos levaram uma baita bola nas costas dos japas, se é que alguém se lembre de Pearl Harbour.

Basta comparar o seguinte: suponha que numa briga você dê uma porrada pelas costas do Anderson Silva, capaz de derrubar o cara, humilhando-o temporariamente. Ele descobre que foi você o autor da façanha e vai querer dar o troco. Ele te acerta com uma única porrada no queixo e você fica em coma por três meses. Passarinho que come pedra sabe o cu que tem. O caso do Japão foi, mal comparando, assim: um ataque de um país em guerra com o outro. Como vários ataques perpetrados pelos alemães em Londres, na Polônia, no norte da África. Como vários ataques da FEB na Itália. A diferença é que tinham duas bombas atômicas no Enola Gay. Repito que nada justifica. Mas não é terrorismo. Ademais, os americanos não festejam o lançamento das bombas em Hiroshima e Nagasaki. Ademais, os americanos não só reconstruíram o Japão como ajudaram o país oriental a se tornar a segunda maior potência econômica do planeta. Ademais, não vemos japoneses querendo destruir os Estados Unidos.

Em seguida, as pessoas dizendo que poucos se lembram do 11 de setembro chileno, ou seja, o assassinato de Salvador Allende e o golpe de Estado liderado por Pinochet, apoiado por quem? Sim, o eterno Moloch: os Estados Unidos!

Vamos lá.

Em primeiro lugar: Allende se matou. Diga-se de passagem, com um arma que lhe fora dada de presente por Fidel Castro. Triste fim de um homem que queria transformar o Chile na marra numa ditadura do proletariado que, talvez só não tenha vingado pela recusa dos soviéticos em liberarem grana a fundo perdido para o porralouca eugenista.

Em segundo lugar, o Congresso chileno já tinha declarado o governo de Allende ilegal. O cara atropelava sistematicamente a Constituição, o Chile era um caos. Para vocês terem uma ideia, imaginem um país controlado pelo MST, pela CUT, mandando e desmandando em empresas públicas e expropriando outras a seu bel-prazer. Imaginaram? É a visão do inferno! Foi nisso que Allende transformou o Chile. E é claro que os chilenos que não tomam sorvete pela testa não queriam isso. O Chile já tinha instituído as cadernetas de racionamento à Fidel. Que, é claro, só não valiam para a casta sindical que controlava o país. E o que eu quero dizer aqui? Que Pinochet estava certo? Claro que não. Mas repito: passarinho que come pedra sabe o cu que tem. Neguinho provoca, radicaliza e acha que fica tudo por isso mesmo? Se você quer que o circo pegue fogo, não espere que o lado que você está desafiando traga o extintor de incêndio. Na maioria das vezes, eles trazem é a gasolina…

Ah, sim, e os EUA nisso? Neca. O único responsável pelo golpe de Estado no Chile é Salvador Allende, “que deixou o país ingovernável.” (Cf. “Guia politicamente incorreto da América Latina” – livro que usa fontes DE ESQUERDA!!!)

Este ano da graça, 2011, completaram-se 10 anos dos atentados nos Estados Unidos, data redonda. Ao se completarem 40 anos da derrubada de Allende é claro que vão lembrar. Se bobear, ainda vão dizer que era um democrata bonzinho que só queria fazer o bem pelo Chile e que ele foi morto por Pinochet em pessoa. Na Globo News talvez os “especialistas” enfatizem isso, dando rasteiras na História.

Os ataques da Al-Qaeda também mostram como agem os antiamericanos de plantão – que não tinham parentes entre as vítimas. Tenho até a impressão de que acreditam que um mundo sem Bush é melhor do que um mundo com Osama. E pensam que um erro justifica o outro – que não é apenas um erro, mas uma burrice imperdoável.

sábado, 12 de março de 2011

EU VEJO O FUTURO REPETIR O PASSADO

- Sistema eleitoral reduzido a uma expressividade cada vez menor.

- Proliferação de legendas e coligações esvaziando partidos.

- Congresso que não corresponde mais às necessidades e aspirações do eleitorado.

- O processo eleitoral não passa por reformas que possam restabelecer a representatividade.

Parece que estou falando dos tempos atuais, né? Estas são algumas características do Brasil-Pandeiro às vésperas do golpe de 1964. Qualquer semelhança não é mera coincidência. O país é que é assim mesmo, repetitivo.

As informações estão no livro “1964: golpe ou contragolpe?”, do historiador Helio Silva. Antes que babem esquerdopatas de plantão por causa do título do livro, digo que ele foi publicado em 1975 pela Civilização Brasileira, editora que de direitista não tinha nada. E é uma pergunta. Apenas uma pergunta.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

NÃO DÁ PRA BRINCAR COM A DEMOCRACIA

A oposição tem que perguntar pra Dilma com qual programa ela pretende governar: com o que acaba com a propriedade privada e vai dar aos paga-paus do PT o poder ao PT de decidir o que eu devo ver na TV ou ler nos jornais (e que a candidata “assinou sem ler” - me poupem!) ou se com o programa mais perfumado que dizia que o outro era brincadeirinha. Esta deve ser a primeira pergunta que Serra ou Marina devem fazer num debate. Se Dilma tiver coragem de ir a algum, claro…

sexta-feira, 23 de abril de 2010

OS SANDINISTAS E CHICO BUARQUE

Leiam este trecho de um post do blog de Reinaldo Azevedo:

Em 1987, o poeta Carlos Drummond de Andrade concedeu uma entrevista a Luiz Fernando Emediato — integra aqui. Destaco um trecho para vocês. Comento em seguida:

O senhor já foi convidado para visitar Cuba, como outros intelectuais que lá estiveram e até escreveram livros a respeito?
Drummond -
Nunca fui, não. Aliás, uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite, e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa que admiro muito, mas com quem não tenho nem contato. Gosto da música dele. Telefonou e disse: “Preciso conversar com você”. Eu disse: “A esta hora da noite? Meu Deus, aconteceu um drama, para o Chico me procurar!” Mas disse. “Pois não, venha”. Apareceu em companhia de um cidadão moreno, magro. Era já meia-noite e meia. O cidadão falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua no Brasil, que tinha lido uma crônica minha no jornal e achava que eu estava mal informado sobre o país dele. Ah, tenha paciência! Eu tenho noção do que escrevo, compreendeu? Não sou partidário dos Estados Unidos, longe disso, acho a agressão à Nicarágua uma coisa estúpida. Mas não se pode negar que a Nicarágua é uma ditadura. Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para o Chico: “Tenha paciência”!

E o embaixador? Ouviu e foi embora?
Drummond -
Era delicado, como todo embaixador.

Comento
É isso. Todo mundo sabia, à época, que a Nicarágua havia saído da ditadura do delinqüente Anastasio Somoza para cair na ditadura dos delinqüentes sandinistas. Chico também sabia. Mas estava lá, fazendo o seu trabalho de relações públicas para uma tirania. E foi uma espécie de porta-voz dos desmandos de Cuba.

Agora vejam o que os outrora democratas sandinistas de Chiquinho estão fazendo na Nicarágua atual contemporânea de nossos dias:

MANÁGUA - Pelo terceiro dia consecutivo, manifestantes pró-governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) atacaram a sede da Assembleia Nacional com pedras e bombas de fabricação caseira, numa onda de violentos protestos que paralisou várias áreas da capital, Manágua. Depois de dois dias paralisadas, as sessões legislativas foram retomadas nesta quinta-feira em clima tenso, com a participação de 90 dos 92 parlamentares da casa. Os deputados da oposição, porém, só conseguiram acesso ao prédio sob forte escolta policial.

Os manifestantes sandinistas tentam impedir que a oposição derrube um decreto do presidente Daniel Ortega, visando à sua reeleição, em 2011. A tensão vem crescendo na Nicarágua desde janeiro, quando Ortega emitiu um decreto presidencial determinando que 25 juízes eleitorais e da Suprema Corte permaneçam em seus cargos indefinidamente - mesmo após o término de seus mandatos. Advogados e membros da oposição, comandada pelo ex-candidato à Presidência Eduardo Montealegre, consideram a medida inconstitucional, já que a decisão é de competência do Legislativo. O bloco opositor garante já ter reunido os 47 votos necessários para revogar, no Parlamento, a determinação. (Texto completo aqui.)

Sou fã da obra de Chico Buarque. Tenho muitos dos seus CDs na minha estante. Mas não é por isso que vou considerá-lo um beato, um messias, um sujeito acima do bem e do mal: infelizmente, a exemplo de Gabriel García Márquez, um de meus autores favoritos, é um defensor de ditaduras. Algum jornalista poderia perguntar a ele, numa próxima entrevista, o que ele acha disso. Mas, infelizmente também, só lhe perguntam platitudes.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 2 de 4

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E continuamos com a história da guerra civil espanhola. Todas as respostas foram tiradas do livro que ilustra o post. Esta é a segunda parte. Ainda faltam duas.

Quais as diferenças entre o falangismo, o nazismo e o fascismo?

O falangismo diferia do nazismo e do fascismo em sua natureza profundamente conservadora. Mussolini usava símbolos romanos e imagens imperiais em seus discursos apenas pelo efeito propagandístico. A Falange, pelo contrário, usava fraseologia moderna e revolucionária mas permanecia fundamentalmente reacionária. A Igreja era a essência da Hispanidad. O novo Estado “se inspiraria no espírito da religião católica que é tradição na Espanha.” Os seus símbolos eram os de Fernão e Isabel: o jugo do Estado autoritário e as flechas da aniquilação para acabar com a heresia. Não só pegaram emprestados os símbolos como tentaram reviver a mentalidade castelhana. O falangista ideal era imaginado como “meio monge, meio soldado”. A exemplo do que já foi dito na série “Fascismo de esquerda” em relação ao nazismo e ao fascismo, os falangistas também possuíam aspectos socialistas. Alguns falangistas atacavam a “falência social do capitalismo” e denunciavam as condições de vida dos operários e camponeses, mas consideravam o marxismo repugnante como ideologia por não ser espanhol e porque a luta de classes enfraquecia a nação. O país tinha que estar fortemente unido num sistema no qual o empregador não pudesse explorar o empregado.

Houve por parte do Comintern alguma preocupação em ocultar a revolução que estaria em marcha na Espanha?

Sim. Por incrível que pareça, os defensores mais loquazes da propriedade não eram os republicanos liberais, mas o Partido Comunista e seu ramo catalão, o PSUC. Ambos seguiam a linha do Comintern de ocultar a revolução. La Pasionária (cujo bordão “No pasarán” é um plágio de uma fala de Petain) e outros membros do seu comitê central negaram enfaticamente que algum tipo de revolução estivesse acontecendo na Espanha e defenderam com todo vigor empresários e pequenos proprietários. Isso numa época em que camponeses ricos ou cúlaques morriam nos Gulags. O Comintern, sem admitir de modo algum uma contradição tão flagrante, registrou as palavras de ordem comunistas recomendadas para a região rural nos arredores de Valência: “Respeitamos os que querem trabalhar em sua terra como um coletivo, mas também pedimos respeito por aqueles que querem cultivar a sua terra individualmente” e “Oprimir os interesses dos pequenos fazendeiros é oprimir os pais de nossos soldados”. Essa postura anrirrevolucionária receitada por Moscou levou em grande número elementos da classe média para as fileiras comunistas.

Por que Mussolini torcia pela criação de um estado fascista no Mediterrâneo?

Não é  que ele só torcesse por isso. A verdade é que ele mal podia esperar por isso, sobretudo um estado que estaria em dívida com ele. Sua grande ambição era rivalizar com o poderio naval britânico e desafiar os franceses no norte da África. O aliado espanhol poderia controlar os estreitos tomando Gibraltar e permitir a possibilidade de bases nas Ilhas Baleares, mas sua frota provavelmente não rivalizaria com a dele. A conquista da Abissínia por Mussolini aumentara muito suas ilusões sobre o poderio italiano.

Por que Hitler ajudou Franco?

Por razões estratégicas. Uma Espanha fascista seria uma ameaça à retaguarda da França, assim como à rota britânica para o Canal de Suez. Havia até a possibilidade tentadora de bases de submarinos no litoral atlântico (De vez em quando os portos espanhóis de Vigo, El Ferrol, Cádiz e Las Palmas foram usados durante a Segunda Guerra Mundial.) A guerra civil serviu também para desviar a atenção de sua estratégia centro-europeia, ao mesmo tempo em que constituía uma oportunidade de treinar os homens e experimentar táticas e equipamento.

O papel das Brigadas Internacionais foi superdimensionado?

Sim. A história das Brigadas foi distorcida de várias formas não só devido à  propaganda que exagerou seu papel de forma desproporcional em relação às formações espanholas; surgiu a impressão, principalmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, de que eram compostas de intelectuais de classe média e “Beau Gestes” ideológicos mortos em ação. Na verdade, quase 80% dos voluntários da Grã-Bretanha eram trabalhadores braçais que largaram o emprego ou estavam desempregados. Alguns ficaram contentes de fugir da apatia do desemprego; outros já vinham combatendo fascistas em lutas de rua. Mas a maioria tinha pouca noção do que realmente significava a guerra.

Os nacionalistas se aproveitaram do medo do comunismo?

Sim. Eles afirmavam representar a causa do cristianismo, da ordem e da civilização ocidental contra o “comunismo asiático”. Para reforçar essa versão dos fatos, alegavam, com base em documentos forjados, que os comunistas tinham planejado uma revolução com 150 mil soldados em tropas de choque e 100 mil na reserva em 1936, golpe que o levante nacionalista impedira. Declararam que o resultado das eleições de 1936 não era válido, embora a Ceda e os líderes monarquistas tivessem-no aceitado na época. Concentraram-se em apresentar a vida na zona republicana como um massacre perpétuo de padres, freiras e inocentes, acompanhado da destruição frenética de igrejas e obras de arte. E, para justificar por que não tinham conseguido tomar Madri, afirmaram que meio milhão de comunistas estrangeiros lutavam na Espanha.

Qual era a defesa dos republicanos?

Na verdade, era supersimplificada. Os republicanos alegavam que tinham sido eleitos legalmente em 1936 e depois foram atacados por generais reacionários auxiliados pelas ditaduras do Eixo. Assim, a República representava a causa da democracia, da liberdade e do esclarecimento contra o fascismo. A propaganda estrangeira da República enfatizava que ela era o único governo legal e democrático da Espanha. É claro que isso era verdade, comparado à ilegalidade e do autoritarismo de seus adversários, mas houve ocasiões em que nem os políticos liberais e de centro-esquerda respeitaram sua própria constituição. O levante de outubro de 1934 muito prejudicou a sua causa contra os rebeldes.

Quando os nacionalistas sentiram que estavam perdendo a guerra da propaganda?

Na verdade, vários fatores contribuíram para isso. Primeiro, havia uma diferença fundamental na atitude dos comandos militares adversários no trato com a imprensa. Os nacionalistas costumavam ver jornalistas como espiões potenciais e devam-lhes pouca liberdade de movimento, principalmente caso pudessem testemunhar um episódio de limpeza.

Os terminais telegráficos internacionais estavam em território republicano, e assim os joranlistas daquela zona tinham suas reportagens publicadas primeiro. As notícias da zona nacionalista costumavam chegar desatualizadas.

Os jornalistas também eram afetados pelas emoções da época. Muitos se tornaram defensores fiéis e muitas vezes acríticos da República depois do terrível cerco de Madri. Sua dedicação afetou a cobertura de questões posteriores, como as manobras do Partido Comunista para assumir o controle. Os ideais da causa antifascista anestesiaram muitos deles para aspectos da guerra que se mostraram constrangedores.

Havia também vários tipos de censura e pressão que afetavam as reportagens publicadas em outros países. Iam dos comunicados com tendência propagandística dos encarregados das relações públicas do governo e da censura republicana até os preconceitos políticos ou comerciais do editor.

A primeira parte está aqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 1

image Imagine que você é um espanhol comum, sem grandes paixões políticas e ideológicas e que tenta levar sua vida de uma maneira normal, frequentando os amigos, levando os filhos no colégio, bebericando de vez em quando, ganhando honestamente o seu dinheiro. De repente, a esquerda vence as eleições – ela, que já tinha tentado dar um golpe de estado anos antes – e a direita, revoltada, resolve promover um levante para derrubar o governo eleito legalmente. Para onde correr? Da noite para o dia, você terá que escolher entre os Brancos, os nacionalistas de Franco e os comunistas da Frente Popular. É algo assim como escolher entre o câncer e a aids.

Retomando as “séries históricas” do LEITE DE PATO, no esquema de perguntas e respostas baseadas no livro “A batalha pela Espanha”, de Antony Beevor, este blog tentará mostrar o que foi a Guerra Civil Espanhola. Claro que tudo isto é um pequeno pedaço do livro altamente detalhista de Beevor, mas já dá pra se ter uma noção do que foi o conflito que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Esta série será dividida em quatro partes.

*     *     *

É correto afirmar que a Guerra Civil Espanhola foi um confronto entre esquerda e direita?

Trata-se de uma simplificação enganosa. Surgiram dois outros eixos de conflito: o centralismo estatal contra a independência regional e o autoritarismo contra a liberdade do indivíduo. As forças nacionalistas da direita eram muito mais coesas porque, com poucas exceções, combinavam três extremos coesivos. Eram ao mesmo tempo de direita, centralistas e autoritárias. A República, por outro lado, constituía um caldeirão de incompatibilidades e suspeitas mútuas, com centralistas e autoritários, principalmente comunistas, enfrentando a oposição de regionalistas libertários.

A Guerra Civil Espanhola continua a ser um dos poucos conflitos modernos cuja história foi escrita com mais eficácia pelos perdedores que pelos vencedores.

Se a coalizão de direita tivesse vencido as eleições de 1936, a esquerda aceitaria o resultado?

Há fortes suspeitas de que não. O líder socialista Largo Caballero ameaçou abertamente, antes das eleições, que, se a direita vencesse, haveria uma guerra civil declarada. Caballero, é bom frisar, declarou que queria uma República sem classes, mas para conseguir isso uma classe teria de desaparecer. Isso era uma repetição óbvia da intenção declarada de Lênin de eliminar a burguesia.

Mas uma vitória da esquerda, em 1937 ou 1938, teria levado a uma escala de execuções comparável à de Franco?

É claro que é impossível saber e não se pode julgar inteiramente pela guerra civil russa, mas esta é ainda uma pergunta que não se deve rejeitar. O vencedor de qualquer guerra civil, como afirmaram vários historiadores, está fadado a matar mais devido ao ciclo de medo e ódio.

Por que o anarquismo se tornou a maior força junto à classe operária espanhola?

A estrutura proposta de comunidade cooperativas livremente associadas correspondia às tradições profundamente enraizadas de ajuda mútua, e a organização federalista falava aos sentimentos anticentralistas. Também constituía uma forte alternativa moral a um sistema político corrupto e a uma Igreja hipócrita. Muitos observadores ressaltaram o otimismo ingênuo que o anarquismo inspirava nos camponeses sem terra da Andaluzia. Muito também foi dito sobre o modo como a ideia foi disseminada por personagens ascéticos, quase santos, e como os convertidos largavam o fumo, o álcool e a infidelidade (conquanto rejeitassem o casamento oficial). Chegou a ser descrito como uma religião secular. A intensidade deste primeiro anarquismo levou os convertidos a acreditar que o mundo veria que a liberdade e a ajuda mútua eram a única base da sociedade naturalmente organizada. Bastaria abrir os olhos do povo, libertar o enorme potencial de boa vontade e deflagrar o que Bakunin chamava de “criatividade espontânea das massas”.

Por que o desenvolvimento dos socialistas foi lento na Espanha?

A sociedade espanhola era predominantemente agrícola e Marx sentia profundo desprezo pelo campesinato, o qual chamava de “idiotia da vida rural”. Ele acreditava que o capitalismo só seria derrubado pela sua própria criação, o proletariado industrial. Mas na Espanha, a maior parte das indústrias se concentrava na Catalunha, bastião do anarquismo. Além disso, a ênfase que os marxistas davam ao estado centralizado ampliava seu insucesso. Os adversários dos marxistas, mesmo nos movimentos de esquerda, chamavam-nos de los autoritarios.

Como era visto o exército espanhol antes da Guerra?

Embora basicamente reacionário, às vezes era visto como aliado do povo contra os políticos corruptos e como força de regeneração nacional.

Qual a diferença de votos nas eleições de 1936, a última da Espanha antes da Guerra Civil?

A Frente Popular, de esquerda, venceu por pouco mais de 150 mil votos de diferença. A lei eleitoral que beneficiara a direita em 1933 agora ajudara a esquerda. A Frente Popular recebeu a maioria das cadeiras das Cortes. Mesmo assim, ignorou a estreiteza de sua vitória e passou a se comportar como se tivesse recebido um mandato avassalador para efetivar a mudança revolucionária.

Quais as consequências econômicas da vitória da Frente Popular?

Antes de mais nada, é bom ressaltar que a Espanha passava por uma grave crise financeira desde 1931. Mas assim que venceram as eleições de 1936, os trabalhadores fizeram enormes exigências salariais, muito além do que as fábricas e fazendas poderiam suportar. As greves se multiplicaram, o desemprego aumentou, o valor da peseta caiu muito no câmbio internacional. O gabinete de transição não conseguiu equilibrar a situação. A impressão geral de um colapso da lei e da ordem caiu como um presente nas mãos da direita antidemocrática.

CONTINUA EM BREVE.

sábado, 9 de janeiro de 2010

O GOLPE DE ESTADO DO PT

Malandramente, o Çábio de Garanhuns assinou o decreto do Plano Nacional de Direitos Humanos no apagar das luzes de 2009. Este decreto talvez seja uma das traduções mais perfeitas do ditado que diz de “de boas intenções, o inferno está cheio”. Sob a bandeira mui respeitosa dos direitos humanos ficamos sabendo no ano da graça de 2010 que a tal Carta ao Povo Brasileiro, aquela que acalmou mercados e os eleitores que ainda hesitavam em votar em Lula, era apenas embromação para que, posteriormente, se pudesse dar “um passo adiante” para o controle total do Estado por parte de conselhos, comitês, da tal sociedade organizada, dos movimentos “sociais”. Enfim, do PT.

A estrovenga ia passando assim, de mansinho, apenas como um desentendimento entre militares e alguns membros da cúpula revanchista do governo quando Reinaldo Azevedo resolveu ler esse troço e destrinchou as reais intenções do decreto. Na verdade, ele é um intrumento de poder, uma espécie de xeque-mate no Judiciário e o início da “bolivarização” do país, que ficaria refém de plebiscitos, referendos, invasões de terra mediadas pelos defensores do MST, devotados cruzados que “fiscalizariam” e cassariam concessões de TV, democratizando, na novilíngua dessa gente, a mídia. E democratizar a mídia pra esse pessoal é fechar a Globo e a Editora Abril. O resto talvez possa negociar a sobrevivência, tornando-se mais um instrumento da luta petista e sua ala mais radical na luta por uma sociedade “mais justa e solidária”. E sem classes, é claro.

Os meios de comunicação pareceram acordar – ainda a tempo – diante do Leviatã petista. A bancada ruralista – que, quem diria, passou a ser um dos pilares da defesa da democracia representativa – já vinha ensaiando uma reação contra o monstro que nascia.

No Manhattan Connection, Diogo Mainardi foi claro: quem segurou os bolcheviques do PT foi Lula. Quem segurou a sanha revolucionária dos amantes de Stálin e Mao, foi Lula. E cabe aqui uma divagação: a ideia do Çábio é eleger Dilma e voltar em 2014. Lamento dizer, mas se a “Mãe do PAC” vencer, Lula já era. Ele não será mais útil ao partido. Ele não é aquele caudilho que “voltará nos braços do povo” ao meu ver. Ele está armando a sua própria arapuca ao tentar ser esperto. Com o PT enfronhado em todas as esferas do poder, ele pode esquecer o seu retorno triunfal, o Planalto e o que mais seja. Estará descartado porque o principal já terá feito: propiciar ao PT o poder total da máquina pública.

É claro que o decreto não é definitivo. Mas não se enganem: esta será a pauta das eleições. Uma forma de acuar a oposição. É um golpe branco de Estado que, se ainda não foi perpetrado, terá quatro anos para se consolidar nas mãos de Dilma Roussef. Seja como for. O decreto aponta a necessidade da criação de 27 leis que podem ou não passar pelo Congresso. Mas se pode confiar nesse Congresso? Se pode confiar na lisura do Congresso? Pelos últimos escândalos é quase um milagre acreditar que os deputados e senadores possam barrar o PT em seu caminho para tornar o Brasil um país fascista.

Agora que foram flagrados com a mão na cumbuca, é bom ficar de olho nesse pessoal. O país que querem Tarso Genro, Franklin Martins e Paulo Vannucchi não é um país democrático. É uma república bolivariana. Com tudo de mau que isso pode trazer.

Acho que agora já deu para entender o que é o Foro de São Paulo, não é? Sim, porque tudo isso estava previsto nas atas da entidade. As vivandeiras estavam certas…