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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O COMOVENTE HUMANISMO IRANIANO

Mais uma obra dos iranianos, aquele povo com o qual a turma da Dilma e do Lula adora bater um papinho…

O pastor iraniano Yousef Nadarkhani foi preso em 2009, acusado de “apostasia” — renunciou ao islamismo—, e foi condenado à morte. Deram-lhe, segundo a aplicação da sharia, três chances de renunciar à sua fé, de renunciar a Jesus Cristo. Ele já se recusou a fazê-lo duas vezes — a segunda aconteceu hoje. Amanhã é sua última chance. Se insistir em se declarar cristão, a sentença de morte estará confirmada. Seria a primeira execução por apostasia no país desde 1990. Grupos cristãos mundo afora se mobilizam em favor de sua libertação. A chamada “grande imprensa”, a nossa inclusive, não dá a mínima. Um país islâmico eventualmente matar um cristão só por ele ser cristão não é notícia. Se a polícia pedir um documento a um islâmico num país ocidental, isso logo vira exemplo de “preconceito” e “perseguição religiosa”. (Aqui)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O QUE OS HISTORIADORES FALAM SOBRE A INQUISIÇÃO - IV

Um pouco de bruxaria e de justiça canônica neste post.


“O certo é que muito ao contrário do que se crê, as perseguições às bruxas não foram por iniciativa da Igreja, mas manifestação de uma crença popular, cuja bem documentada existência remonta à longínqua Antiguidade. (…) Há novos testemunhos sobre perseguição de bruxas sem o consentimento da Igreja. (…) Não encontramos nada sobre bruxaria nos primeiros manuais do Santo Ofício.”

Gustav Henningsen


“1- Enquanto a Inquisição se mostrava dura com os judeus, maometanos e protestantes, se mostrou muito branda em relação ao castigo às bruxas e outras formas de delitos mágicos.

2 - A Inquisição poderia ter causado um holocausto de bruxas nos países do Mediterrâneo - mas a História nos mostra algo muito diferente - a Inquisição foi aqui a salvação de milhares de pessoas acusadas de um crime impossível.

3 - ... católicos, luteranos, calvinistas, anglicanos, ninguém se culpa de haver lançado lenha ao fogo. Em honra da verdade todos os cristãos deveriam fazer causa comum com o Papa João Paulo em seu propósito de reparação".

Idem.


"Ao lado de juizes violentos ou cruéis, havia grande número que, tendo incessantemente Deus ante os olhos, como diziam certas sentenças, eram plenamente conscientes da gravidade e das pesadas responsabilidades do seu ministério. Sacerdotes e monges trabalhavam para a glória de Deus e a defesa da verdade, movidos por razões de ordem sobrenatural; detestaram a heresia, mas eram cheios de misericórdia com os indigitados. Condenar um inocente parecia-lhes uma monstruosidade, e, como lhes recomendavam os Papas, só pronunciavam sentença condenatória quando a culpabilidade não lhes deixava nenhuma dúvida. Reconduzir à ortodoxia um herege era, para eles, uma grande alegria e, em vez de o entregar ao braço secular e à morte, que tirava toda esperança de conversão, eles preferiam recorrer às penitências canônicas e a penalidades temporárias, possibilitando ao culpado o emendar-se. Tais sentimentos são muitas vezes expressos nos manuais dos inquisidores" e nos possibilitam apreciar a boa fé, a consciência a retidão e mesmo a caridade de muitos dentre eles."

Jean Guiraud


“A Inquisição introduziu a justiça regular, evitando que a justiça leiga ou mesmo a revolta popular infligissem os piores castigos aos suspeitos de heresia. Muitas vezes foi a autoridade eclesiástica quem interveio para subtrair à fúria da multidão os que esta considerava heréticos, embora nem sempre conseguisse evitar que condenados à prisão fossem retirados e conduzidos à fogueira pela população furiosa e amotinada, que se queixava da 'fraqueza e excessiva brandura' do bispo. Todos esses aspectos ajudam-nos a não julgar com tanta severidade instituições de outras épocas e mentalidades..."

Jorge P. Cintra 


“É importante dizer que se as provas do réu eram eficazes, o processo podia voltar-se contra o denunciante; o caluniador podia ser condenadoà mesma pena que o acusado receberia. Em qualquer caso de culpa, sempre a confissão desta faz a pena ser diminuída pelo tribunal e cai-se no caso da penitência canónica. Em caso contrário os inquisidores obrigam o réu a rejeitar a sua fé herética. Como forma de pressão é apresentado ao réu que se nega a abandonar a heresia, a pena que poderá sofrer, prisão perpétua ou pena de morte. O réu ficava então meditando um longo tempo em uma cela, alimentando-se só de pão e água. Se todos esses meios falhassem, recorria-se infelizmente, à tortura. No entanto, o historiador americano C. H. Lea declara que "foram raras as alusões à tortura".

Daniel Rops

sábado, 27 de agosto de 2011

O QUE OS HISTORIADORES FALAM SOBRE A INQUISIÇÃO - III

 

O papa Inocêncio III que conduziu o Concílio de Latrão IV que proibiu clérigos de participar de processos com derramamento de sangue e de benzer ordálios judiciais de fogo e água.

Prosseguindo com nossa história sobre um dos capítulos mais polêmicos da História, continuo deixando falar sobre a Inquisição as pessoas que estudaram o assunto a fundo. É bom reiterar que entre os historiadores que são citados aqui existem protestantes, agnósticos e ateus.


"A Inquisição não foi uma organização arbitrariamente imposta ao mundo cristão pela ambição e pelo fanatismo da Igreja. Foi antes o produto de uma evolução natural, poder-se-ia quase dizer necessária, das diversas forças de ação no século XIII".

Charles H. Lea, "Histoire de L’Inquisition au moyen age" (1900).


"De todas as formas, o direito inquisitorial é um direito privilegiado já que contém sanções mais benignas que as do direito penal, ordinário ou secular, onde o delito de heresia era reprimido inapelavelmente com a pena de morte".

Enrico Gacto


“De certa forma, a Inquisição foi a reação de defesa de uma sociedade para a qual a preservação da fé era tão importante como a saúde ou direitos humanos para a sociedade atual [...] a Inquisição representou um progresso com relação aos tribunais e julgamentos da época, como reconhecem muitos juristas atuais: era o tribunal mais justo e bran­do do seu tempo."

Jorge Pimentel Cintra


“Naturalmente, a Inquisição não era um agradável clube para conversas amenas, mas fornecia garantias jurídicas inexistentes nos tribunais civis daquela época.”

Luigi Firpo


“A Inquisição introduziu um princípio de transparência e de direito onde o poder político e o povo queriam proceder a justiça sumária e exemplar.”

Gustav Henningsen


"A Inquisição na Espanha", afirma que "para muita gente constituirão sur­presa as constatações do autor (a) de que os tribunais da Inquisição eram em regra clementes, e mais ainda se comparados com os tribunais seculares; (b) que a Inquisição não inventou torturas especiais e aquelas que mais frequentemente usava - a garrucha, a toca e o potro - eram comuns aos outros tribunais; (c) de que embora segregado dos demais, o suspeito ou acusado detido pela Inquisição era razoavelmente bem tratado, ern cela aquecida, limpa e iluminada; (d) de que embora não houvesse limite de idade para a detenção ou a tortura, era raro que tais penas fossem ministradas a crianças e velhos; (e) de que nem sempre o suspeito ou acusado era torturado, e de que de qualquer modo não mais de uma vez; (f) de que a confissão confessada sob tortura não era considerada válida, se não fosse ratificada sem coação no dia seguinte; (g) que as penas de prisão de trabalho nas galés ou de degredo ou banimento foram muito mais numerosas do que as penas capitais; (h) que mesmo neste último caso, se o acusado, no momento de ser consumido pelas chamas, se arrependesse ou confessasse, era misericordiosamente estrangulado pelo carrasco."

Edson Carneiro em prefácio para o livro “A Inquisição espanhola”, de Henry Kamen

PARTE 1

PARTE 2

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O QUE OS HISTORIADORES FALAM SOBRE A INQUISIÇÃO - II

Demorei, mas consegui fazer a segunda parte da séria série “O que os historiadores falam sobre a Inquisição”. Já disse e repito: não sou católico. Já disse e repito: não estou defendendo a Inquisição. Já disse e repito: não acredito em homens do seu tempo, expressão que volta e meia surge para legitimar atrocidades.

Nos textos abaixo, os historiadores cujos nomes são citados nos dizem que a Inquisição acabou sendo engolida pelo poder temporal, pelo braço secular, pelo raio que seja. Foi apoiada por príncipes e reis: alguns só pensando no que poderiam render os confiscos dos bens dos hereges; outros, que acreditavam que a ortodoxia estava zelando pela civilização – o que, se pensarmos na heresia cátara, não está muito longe da verdade, ainda que os meios não tivessem sido lá os mais civilizados.


"A Inquisição é sempre considerada uma instituição da Igreja. Isto está certo, mas convém enfatizar uma realidade fundamental, evidente, mas frequentemente esquecida, a saber: a Inquisição só podia atuar associada aos poderes leigos. Ela não dispunha de poder material. Ela só podia incutir temor se contasse com o apoio dos príncipes e dos governos. Em lugar nenhum os inquisidores podiam prender alguém, assentar-se, julgar, mandar executar sua sentença, se não dispusessem da força armada e da assistência do regime local, dos seus representantes e dos seus agentes.

Essa colaboração era tida como um dever de Estado por parte dos detentores do poder temporal. Tal colaboração era mais fácil na medida do interesse dos governantes na confiscação dos bens dos condenados, que redundavam em favor do Estado em troca do sustento ministrado aos inquisidores em relação ao poder civil. Na verdade, os gastos com os inquisidores eram elevados, como demonstram as raras prestações de contas que foram conservadas.

Enfim é certo que a erradicação dos comportamentos indesejados e o reforço da unidade da Igreja e de unidade da fé serviu à unidade polí­tica numa época em que o vínculo religioso era a única garantia da coe­são das populações."

Jean-Louis Biget, Ecole Normale Supérieure de Saint-Cloud


“Era, talvez, inevitável que em qualquer momento fossem instituídos tribunais regulares, mas esses tribunais foram marcados por uma dureza particular, em razão do renascimento do Direito Romano: as constitui­ções de Justiniano, realmente, mandavam condenar os hereges à morte. E é para fazê-lo viver que Frederico II, tornado imperador da Alemanha, promulga, em 1224, novas constituições imperiais, que, pela primeira vez, estipulam, expressamente, a pena da fogueira contra hereges empe­dernidos. Assim se vê que a Inquisição, no que ela tem de mais assusta­dor é fruto de disposições tomadas, de início, por um imperador em quem se pode encontrar o protótipo do "monarca esclarecido", apesar de ter sido, ele próprio, um cético e logo excomungado.”

As concessões dos religiosos se voltaram contra eles mesmos:

"Ora, todo este aparelhamento de legislação contra a heresia não demoraria em ser dirigida pelo próprio poder temporal contra o poder espiritual do Papa. Sob Filipe, o Belo, as acusações contra Bonifácio VIII, contra Bernard Sasset, contra os Templários, contra Guichard de Troyes apoiam-se nesse poder reconhecido no rei para perseguir os hereges. Mais do que nunca, a confusão entre espiritual e temporal joga a favor deste último. Só precisamos recordar aqui as consequências mais graves: a Inquisição do século XVI, a partir deste momento só nas mãos dos reis e imperadores, iria fazer um número de vítimas sem comparação com as do século XIII. Na Espanha, chegar-se-à à utilização da Inquisição contra os judeus ou mouros, o que equivalia a deturpar por completo seus objetivos."

Régine Pernoud


“Não foi a Igreja que inaugurou a repressão da heresia por meio da violência. Se a considerou em todos os tempos como um crime de ‘lesa-majestade' divina, nunca pediu a aplicação dessas penas severas que castigavam toda a lesa-majestade no direito imperial romano. No decurso dos três primeiros séculos, recorreu apenas à persuasão e as punições espirituais. Foram os imperadores cristãos, Constantino e seus sucessores, que, como 'bispos do exterior', castigavam com penas temporais - multas, prisão e flagelação os rebeldes contra a verdadeira fé, maniqueus ou donatistas. Foi a reaparição da heresia dualista, maniqueia (…) que provocou uma reação mais viva. Esta reação foi obra dos príncipes: Roberto o Piedoso, em 1017, man­dou queimar os hereges de Orléans; "porque temia pela segurança do reino e a salvação das almas"; o imperador Henrique III, em 1052, man­dou enforcar outros em Goslar. Até meados do século XII, todas as con­denações à morte de hereges foram decididas pelas autoridades civis, muitas vezes impelidas pelas multidões fanatizadas.

A Igreja levantou-se contra essas mortes, principalmente contra as execuções sumárias. Foram inúmeros os Doutores e Pontífices que fize­ram ouvir os seus protestos. Foram numerosos os cânones dos concíli­os que, excomungando os hereges e proibindo os cristãos de lhes darem asilo, não admitiam que se utilizassem contra eles a pena de morte. De­viam bastar as penas espirituais ou, quando muito, as penas temporais moderadas."

Daniel Rops, membro da Academia Francesa, História da Igreja (10 volumes)


"A Igreja durante muitos séculos se conservou tolerante com as dissidências usando apenas a catequese para convertê-los, e afirma que o que fez as autoridades agirem pesadamente contra os hereges, muito antes da Igreja, foi o caráter antissocial das heresias.”

J. Guiraud, Histoire de l 'Inquisition au Moyen Âge


"Em vista do caráter antissocial dos cátaros e outros sectários, devemos reconhecer que a causa da ortodoxia não era outra senão a da civilização e do progresso. Se o catarismo se tornasse só igual ao catolicismo, os efeitos teriam sido desastrosos. Se o ascetismo que professassem se tornasse universal, devia levar à extinção da raça humana. Eles consideravam pecado qualquer esforço de melhoramento material, o teria paralisado completamente o progresso da sociedade."

José S. J. Bernard, A Inquisição – História de uma instituição controvertida (1959)


A PARTE 1 está aqui.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O ESTADO É LAICO

… mas isso não significa que religiosos não possam se manifestar, sobretudo num parlamento. A laicidade não significa, muito menos, que se deva calar parte importante da população brasileira. Católicos e evangélicos sem voz? A pretexto de quê? O Estado laico não é ateu. Da mesma forma como pessoas sem religião podem emitir suas opiniões, religiosos podem e devem fazer o mesmo. Ou eu perdi alguma coisa?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

GALILEU

Eu não sou católico. Eu tenho sérias dificuldades em aceitar o dogma da trindade. Não acho, por exemplo, que Jesus é Deus. Até porque, segundo li, ele nunca afirmou isso. Pelo contrário, na cruz, na solidão de sua morte próxima, ele perguntava por que o Senhor o havia abandonado. Ora, se ele fosse Deus, por que perguntaria isso? Por que pediria, por exemplo, que Deus afastasse dele o cálice lá no Jardim das Oliveiras?

De qualquer forma, são questões minhas e nenhum católico tem nada a ver com isso. Neste blog não se verá nenhum menosprezo à crença cristã. Sou casado com uma católica, não frequento missas, meu filho está na catequese e não há problema nenhum aqui em casa por causa do rabi que foi crucificado em Jerusalém. Se meu filho se tornar um ateu, que seja. É uma escolha pessoal. Assim como a crença em Jesus. Esse papo de que religiãio é uma “muleta psicológica” é conversinha de grêmio estudantil de segundo grau, assim como o socialismo enquanto forma de redenção dos povos.

Mas por que digo isso? Porque mesmo não sendo católico, eu gosto de ler sobre o assunto. Respeito e admiro a Igreja – mesmo sabendo de seus defeitos – que ajudou SIM a construir a civilização ocidental. Que criou universidades – tal como as conhecemos hoje –; que antes do Iluminismo, 200 anos antes pra ser quase preciso, através dos jesuítas, já defendia a liberdade individual; que não temia a Ciência, posto que os cientistas eram padres, monges etc. E porque o único argumento – repetirei – O ÚNICO argumento contra a Igreja, no campo científico, é a condenação de Galilei diante da Inquisição. Giordano Bruno não conta: foi condenado por bruxaria, o que eu não defendo, pelo amor dos meus filhinhos. Mas ele não fez ciência pra ser condenado. E naquela época, o povo era mais “zeloso” em certas questões que a Igreja.

E Galilei? Rodou por quê? Em primeiro lugar, não rodou. Era afilhado de papa e não seria queimado jamais. Sua prisão domicilar acabou sendo revogada. E, atenção, não foi condenado por fazer ciência, caralhos! Foi condenado por fazer teologia – queria mudar as Escrituras por causa de suas “descobertas”. O mais, encontre aqui, neste texto de Olavo de Carvalho:

O confronto com a Inquisição não foi uma disputa entre “ciência e fé”, nem muito menos entre “ciência e superstição”, mas entre a pseudo-ciência presunçosa de Galileu e a ciência superior de São Roberto Belarmino, que desmantelou com argumentos irrefutáveis a presunção galilaica de que o Sol fosse o centro do universo (e não só de um sistema planetário em particular).

A famosa abjuração, ante a qual gerações de vigaristas intelectuais derramaram oceanos de lágrimas de crocodilo, foi apenas uma declaração pro forma feita ante o tribunal, após a qual Galileu, sob a proteção do Papa, pôde continuar a ensinar suas mesmas doutrinas de antes sem jamais voltar a ser incomodado.

Por fim, a única penalidade que a Inquisição lhe impôs foi de uma benevolência quase obscena, que hoje soaria como favorecimento ilícito: ele foi condenado a rezar uma vez por semana, durante três anos, os sete salmos penitenciais, podendo fazê-lo em privado, isto é, sem nenhum controle da autoridade. A coisa inteira levava quinze minutos no máximo, e ele ainda não precisava submeter-se à penitência pessoalmente, podendo solicitar que suas duas filhas, ambas freiras, a fizessem em seu lugar.

Nisso consistiu o “martírio” do grande homem.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A BABAQUICE DA VEZ

A foto acima é o tal do beijaço que os gays da Catalunha promoveram quando da visita de Bento XVI a Barcelona. É coisa de moleque pirracento. Me lembra aquelas crianças que tocam a campainha e saem correndo…

domingo, 15 de agosto de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel PARTE 7 (FINAL)

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Chegamos ao fim de nossa saga das heresias medievais. Nesta última parte, Joaquim de Fiore, os beguinos e outras milongas mais.

No que consistia a heresia de Joaquim de Fiore?

Joaquim de Fiore especulava a respeito do curso da história do mundo e da Igreja e suas profecias de caráter apocalíptico-reformista trouxeram consequências ainda mais fatais. Desenvolveu amplamente um fantástico simbolismo nu­mérico e uma profunda interpretação alegórica e tipológica das Sagradas Escrituras. Seu pensamento culmi­nava na profecia da última idade do Espírito Santo, perto de se realizar, que deveria levar a Igreja seculari­zada a uma reforma radical.

Joaquim não pôs a cristologia como centro de sua teologia da história, como até então se fizera, mas sim a Trindade. Segundo ele, as três pessoas em Deus cor­responderiam à três épocas diversas (status) da história da salvação, contendo 42 gerações de 30 anos cada uma; de acordo com Mt. 17, a idade superior a Cristo, ou Idade do Pai, era dominada pela letra da lei e pela carne e também era chamada de a época dos desposados e dos leigos; a Idade do Filho representava um estádio intermediário entre o espírito e a carne, denominada também a época dos clérigos; enfim, a terceira e última idade, a do Espírito Santo e a dos monges, que come­çaria a partir de 1260, e a corrompida Igreja da carne cederia lugar à perfeita Igreja do espírito.

A heresia de Joaquim de Fiore teve aceitação?

Bastante. Especialmente no ambiente rigorista dos espirituais, que representavam a corrente mais rígida na Ordem Franciscana. O Ministro Geral dos Menores João de Parma (1247-1257) também a acolheu com simpatia.

O franciscano Gerardo de Borgo San Donnino publicou, em 1254, o seu Introductorius in Evangelium eternum, no qual apontava como "evangelho eterno" justamente as obras de Joaquim, exaltava São Francisco como o novo legislador e profeta enviado por Deus e indicava os franciscanos (espirituais) como sendo a nova ordem da última idade anunciada por Joaquim. Foi desencadeada imediatamente uma feroz perseguição contra eles.

A Igreja conseguiu extinguir a heresia de Joaquim de Fiore, mesmo com a perseguição?

Não foi possível sufocar a corrente joaquimita; e a ideia de renovação da Igreja, que seria alcan­çada com a supressão de seu poder terreno, dominou, mesclada com ideias políticas de natureza variada, du­rante toda a Idade Média, a mente de muitos.

Ao lado dessa corrente, deve-se mencionar também certas manifestações de devoção exacerbada como as procissões dos flagelantes em 1260-1261, que, partindo da Perúgia, se espalharam pela Itália Central e Seten­trional, chegando até à Alemanha, e obrigando as auto­ridades eclesiásticas a intervir.

As ideias joaquimitas influíram também na eleição de Celestino V, em 1294, considerado por muitos o "Papa Angélico".

Pouco mais tarde esse movimento foi representado pelo médico e teólogo laico Arnaldo de Vilanova, homem de confiança de Bonifácio VIII.

O que era a seita dos beguinos?

Eram os Irmãos Pobres da Penitência da Ordem de São Francisco, mas foram muito influenciados pelos escritos de Pedro João Olivi, a quem consideravam como sendo o anjo do Apocalipse do Capítulo 10, de modo espiritual, e diziam que sua face era como o sole que tinha um livro aberto na mão. Entre todos os doutores da Igreja, foi para ele que Jesus Cristo, sua Verdade e o Apocalipse se revelaram.

E o que foi o fenômeno das beguinas?

O fenômeno das beguinas (mulieres religiosae beginae, begginae), consequência da reforma gregoriana e da tendência à vida apostólica, foi promovido pelos pregadores ortodoxos e hereges. Sob a direção de uma mestra, levavam vida em comum, sem votos pro­priamente ditos, dentro de "cortes de beguinas", dedi­cando-se à oração, ao trabalho manual, à assistência aos enfermos, ao cuidado dos cadáveres e à educação das crianças. A corporação teria sido fundada, de acordo com uma lenda do século XV, por Santa Bega (+ 694), filha de Pepino, o Velho, ou pelo pregador penitencial Laberto, lê bègue (o gago) ou lê bèguin, em Liége, em 1177. Outros pensam que o nome deriva de albigenses, ou talvez do hábito beige ( = bege, lã em seu estado natural) das mulheres.

Gregório IX baixou em seu favor um breve de proteção (1233). Mas muitas begui­nas deixaram-se influenciar pelas ideias panteístico--quietistas dos Irmãos do Livre Espírito e tornaram-se suspeitas da Inquisição, de sorte que a associação toda foi desacreditada e o Concílio de Viena de 1311 orde­nou a sua supressão. Contudo, João XXII ainda permi­tiu que as beguinas ortodoxas levassem vida em comum e exercessem sua atividade caritativa. Alguns conventos de beguinas uniram-se à Ordem Terceira de São Fran­cisco ou de São Domingos.

E quanto aos beguinos do sexo masculino?

Os begardos (beguines, begines) eram uma associação mas­culina paralela à das beguinas, surgiram por volta de 1220 nos Países Baixos. Atuavam na assistência aos enfermos e no sepultamento dos mortos, e difundiram-se tão extensamente quanto as beguinas. Bem cedo se desviaram de suas tendências iniciais e se tornaram suspeitos de heresia, de modo que desapareceram antes do século XVI.

Quais as principais características dos beguinos?

Não concediam a seus irmãos mais que o consumo de alimentos necessários para a vida de cada dia e o uso de objetos, breviários ou vestimentas sagradas que servem para o ofício divino. Proibiam-nos de receber donativos pelas sepulturas outorgadas em igrejas de frades menores ou qualquer outra doação. Segundo seus censores e apologistas, a ideia mais pro­funda de sua doutrina era claramente de influência joaquimita: proclamava um estado futuro da Igreja, mais perfeito que o anterior, do qual São Francisco era o precursor, e cujo advento seria apressado pelas re­formas monacais.

Os beguinos viviam nas cidades e nos burgos em pequenas "casas da pobreza". Em dias festivos e nos domingos, os beguinos que viviam em comunidade reu­niam-se com seus familiares ou amigos. Liam juntos opúsculos ligados à sua doutrina que tratavam dos man­damentos, dos artigos da fé e das lendas de santos. Alguns deles mendigavam de porta em porta a fim de cumprir o voto de pobreza evangélica; outros traba­lhavam e ganhavam, mas levavam sempre uma vida paupérrima.

O que os beguinos pensavam de Jesus? E sobre São Francisco?

Os beguinos sustentavam que Jesus e seus Após­tolos, em sua vida mortal, não haviam possuído nada, quer em particular, quer em comum, pois nesse mundo eram pobres perfeitos. Afirmavam também que a Regra de São Francisco era a mesma regra que Jesus Cristo observara nesse mundo e legara aos seus apóstolos. Aquilo que São Francisco dissera aos seus irmãos quan­to à pobreza evangélica deveria ser interpretado deste modo: os que professam a Regra não poderiam pos­suir nada quer em particular, quer em comum, mas ter apenas o necessário à vida, adotando somente o uso "pobre" que frisa a indigência e proscreve todo su­pérfluo.

Os beguinos acreditavam que a autoridade de São Francisco era maior que a do Papa?

Sim. Para eles, São Francisco fora, após Jesus e os Apóstolos, o principal e o maior observador da vida e da regra evangélica; fora, também, o renovador nesta sexta idade da Igreja, que era a sua época. Afirmavam que a Regra era o mesmo que o Evangelho de Cristo, e quem a combatesse opor^se-ia ao Evangelho e, portanto, não passaria de um herético. Assim como o papa ou qualquer outra pessoa não poderiam modificar o Evangelho, ninguém poderia alterar a Regra de São Francisco e nem adicionar ou suprimir algo em seu texto. Portanto, o papa não teria o direito de anular a Regra evangélica de São Francisco pois ela era a ordem evangélica. Isso também era válido para a Regra dos terciários de São Francisco. E seguindo o mesmo raciocínio, os beguinos afirmavam que um papa ou um concílio não poderiam anular ou contradizer as aprovações, decisões ou ordenações confirmadas por seus antecessores; deste modo, as duas Regras de São Francisco, confirmadas pelos pontífices romanos, bem como todas as regras, não poderiam ser anuladas por nenhum papa_e nem mesmo por qualquer concílio ge­ral. Caso isso ocorresse, ninguém deveria obedecer, mesmo sob pena de excomunhão.

O papa não poderia dispensar uma pessoa dos votos feitos à Regra de São Francisco, isto é, à castidade, à pobreza e à obediência, e mormente do voto de pobreza feito a Deus, quando este voto foi simples e não solene. A pessoa que fizesse um voto de pobreza teria de observá-lo o resto de sua vida, pois a dispensa implicaria em descer de um grau de virtude e de per­feição mais elevado para um grau baixo e inferior; nes­te caso, o papa só poderia usar o seu poder para cons­truir e não para destruir. O papa não teria o direito de editar uma bula ou decretal que permitissem ou concedessem aos frades menores a prerrogativa de con­servarem, com previsão do futuro, nos silos e celeiros, o grão e o vinho para o seu uso e alimentação, pois isto seria contrário à Regra evangélica de São Francisco e, consequentemente, ao Evangelho de Cristo.

Pode-se dizer que as heresias dos séculos XII e XII reformularam a missão espiritual da Igreja?

Sim. Após muitos séculos de esforços de seus representantes para fortificarem a concepção de que todo poder emanaria dela. Essa volta completa a uma religião puramente espiritual foi, talvez, a rnaior contribuição do pensamento herético nos séculos XII e XIII. Porém, sua ideia central, que era sua força, continha, ao mesmo tempo, a sua debilidade. A aspiração de transformar o corpo místico de Cristo em uma verdadeira Igreja espiritual não se ajustava ao seu tempo (é sintomático o fato de ter transferido a realização de suas concepções para um futuro distante, frequentemente envolto em mistérios apocalípticos). Quando o Papa eremita Celestino V foi eleito e esperava-se que conseguisse adiantar-se à sua época, realizando parte das aspirações dos espirituais, ele viu-se dominado por seus conselheiros, aturdido pelo aparato material da Igreja, massacrado por uma função que não era mais de santos e puros. As chaves de São Pedro eram demasiado pesadas para o papa eremita, que acabou agindo como uma figura estranha e pequena, perdida na imensidão do palácio papal. A realidade vencera esse tipo de cristianismo ingênuo e puro, e a história da Igreja parecia irreversível.

PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

PARTE 4

PARTE 5

PARTE 6

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – PARTE 6

imageE seguimos com a história das heresias medievais. Esta é a penúltima parte.

Qual a base da violência no combate às heresias?

A base era popular. A própria existência da heresia é, sem dúvida, sinal demonstrativo da vida religiosa dos tempos medievais. Por isso, não se deve estranhar a violência gerada no combate à ela. Nem sempre o extermínio dos heréticos cátaros era executado por funcionários que deviam justiçá-los, mas por iniciativa do populacho fanatizado que não tolerava a heresia “filha de Satã”.

Qual a atitude da Igreja perante a heresia?

Primariamente, a de tentar converter os heréticos à fé católica, só adotando uma atitude agressiva e o uso da violência quando nada se conseguia no primeiro caso. A violência popular era condenada pela Igreja. Vemos estas tendências nas palavras de São Bernardo, escritas ao papa após o massacre de Colônia:

O povo de Colônia passou da medida. Se aprovamos o seu zelo, não aprovamos, de modo algum, o que fez, pois a fé é obra de persuasão e não podemos impô-la.

No que a Igreja se baseava para usar o poder temporal de perseguir, julgar e exterminar heresias?

Baseava-se na teoria das “duas espadas” do Papa Gelasius, que afirmava que Deus havia dado o poder temporal e espiritual ao papa que, por sua vez, entregara o poder temporal aos reis, monarcas e príncipes para proteger a fé. Em última instância, a heresia que visava atacar a cátedra de São Pedro, o papa, era perigosa não só do ponto de vista religioso dogmático, mas também sob o aspecto da unidade política do mundo cristão.

Quem fundou a heresia valdense?

Foi o rico comerciante Pedro Valdo ou Valdes de Lyons que, segundo o testemunho do Anônimo de Laon, ficou profundamente abalado pela leitura das Escrituras Sagradas, por volta de 1173. Ele traduziu o Evangelho para o provençal e rom­peu todos os vínculos com o mundo, confiando seus bens à esposa e na carestia de 1176 doou o restante de seu património aos pobres. Passaram a segui-lo homens e mulheres que praticavam a instrução do Evangelho, vagando pelas estradas dois a dois, em pobreza apostólica, vestidos com simples buréis, pre­gando a penitência. O movimento difundiu-se rápida e extensamente, alcançando os Humilhados da Lombardia, uma confraria de artesãos (tecelões) que se associaram por objetivos econômicos e religiosos na primeira metade do século XII. Grande parte deles ligou-se aos valdenses, com os quais foram excomungados pelo Papa Lúcio III.

A seita valdense conseguiu se manter unida?

Não. Os valdenses lombardos queriam ter, malgrado a oposição de Valdo, a eleição e a ordenação de seus próprios pastores e conservar as suas próprias associações de artesãos, isto é, a prática do trabalho manual remunerado. Assim, em 1210, houve uma ruptura que continuou ainda depois da morte do funda­dor, em 1217. Enquanto os valdenses da França, con­finados em grande parte no Languedoc, na Provença e no Delfinado, mantinham, apesar de suas doutrinas heréticas, certo liame com a Igreja Católica e participavam de sua liturgia, os valdenses italianos passaram à mais agressiva oposição, negando a validade dos sacramentos administrados por sacerdotes católicos e instituindo um serviço litúrgico próprio. Este ramo lombardo desdobrou-se numa grande atividade e, va­lendo-se de uma propaganda clandestina ativa, conse­guiu difundir-se não só no Piemonte e na Sabóia, mas também na Alemanha Meridional e Oriental, na Boé­mia, na Morávia, na Polónia, na Hungria, na Itália Meridional, conquistando muitos adeptos. A Inquisição teve muito trabalho com eles até a época do Renascimento. Muitos valdenses foram leva­dos à fogueira e outros reconquistados pela persuasão pacífica.

O que declarava a heresia valdense?

Declarava que a Igreja fora pura e incorrupta até a época de Constantino, quando o Papa Silvestre ganhou a primeira possessão temporal para o Papado, começando, assim, o sistema de uma Igreja rica, poderosa e temporal, tendo Roma como sua capital.

O inquisidor Sacconi dividia-os em duas classes: os do Norte dos Alpes e os da Lombardia.

A primeira classe assegurava, entre outras coisas, que:

1) os juramentos são proibidos pelo Evangelho;

2) a pena capital não é permitida ao poder civil;

3) todo leigo pode consagrar o sacramento do altar;

4) a Igreja Romana não é a Igreja de Cristo.

A seita lombarda assegurava que nenhum pecado mortal poderia consagrar o sacramento, e que a Igreja de Roma era a mulher marcada do Apocalipse, cujos preceitos não deveriam ser obedecidos, especialmente os apontados como dias de jejum. Diferentemente dos cátaros, opunham-se ao ascetismo e não tinham um sacerdócio oficial; mas, ao mesmo tempo, aproximavam-se deles por serem também contrários aos juramentos e à pena capital.

Os valdenses, apesar das perseguições permanentes que sofreram durante toda a Idade Média, conseguiram, como se sabe, sobreviver até os nossos tempos.

Quais as características dos pseudo-apóstolos ou apóstolos de Cristo?

Um dos traços da doutrina dessa heresia manifestou-se no ataque aberto e direto ao Papado, exigindo a limitação de seu poder. Os apóstolos de Cristo também afirmavam que após a época do Papa Silvestre a Igreja abandonara o gênero de vida dos primeiros santos, exceto o Frade Pedro de Morrone, fundador dos celestinos, que mais tarde, a 5 de julho de 1294, tornou-se o Papa Celes­tino V. Desde o início usavam cabelos longos, uma túnica branca com uma pelerine da mesma cor presa no pes­coço. Seus adeptos deviam percorrer o mundo descal­ços ou de sandálias, mendigando como os pobres, vivendo de esmolas e pregando ao povo:

Fazei penitência, pois o reino dos céus está próximo (Mt. 3.2).

Anteriores:

PARTE 1

PARTE 2

PARTE 3

PARTE 4

PARTE 5

segunda-feira, 7 de junho de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – PARTE 4

image… E damos prosseguimento à peregrinação sobre as heresias medievais. Mais uma vez, fala-se dos cátaros e sobre o que eles pensavam de Deus, uma ideia que muito se aproxima da gnose.
Na Igreja Cátara, qual a diferença entre os Perfeitos e os Crentes?
Os Perfeitos eram isolados das grandes massas dos Crentes por uma elaborada cerimônia de iniciação, ou batismo espiritual, o consolamentum. Havia entre os Perfeitos uma hierarquia de bispos e diáconos, mas estes últimos não tinham o direito exclusivo de administrar os sacramentos.
Afora o consolamentum e a ordenação, os cátaros tinham dois outros sacramentos: a penitência e a quebra do pão. Esta era uma espécie de comunhão, pois não acreditavam na transubstanciação. Os Perfeitos dedicavam-se à contemplação e esperava-se que mantivessem o mais elevado nível moral, cabendo aos Crentes fornecer-lhes alimentos.
Os Crentes não podiam aspirar ao alto nível dos Perfeitos. Por não obedecerem inteiramente à proibição das relações sexuais, por exemplo, eles provocavam aberrações nos relacionamentos, o que constituía motivo para os católicos acusarem-nos de todos os tipos de vícios. Mas é possível que as acusações tenham sido exageradas.
Como os cátaros viam os livros sagrados?
Os cátaros não acreditavam que toda a Bíblia era sagrada. Viam o Velho Testamento com muita reserva e o Novo Testamento foi reinterpretado. A doutrina da reencarnação de Deus era impossível aos cátaros, para os quais Jesus foi um anjo que veio indicar o caminho da salvação, mas não fornecê-lo em pessoa; logo, seus sofrimentos e morte eram uma ilusão.
Qual a doutrina cátara da criação do homem?
Segundo os cátaros, Satã, depois de criar o mundo, decidiu povoá-la e constituir uma milícia para combater o deus-bem. Penetrou no Céu, seduziu alguns anjos e para prendê-los à Terra deu-lhes um corpo. Depois disso, induziu-os ao pecado carnal, ligando-os à condição humana. Do mesmo modo que na doutrina cristã, o homem estaria condenado desde o nascimento, mas, segundo o catarismo, o pecado original era determinado pelo céu.
O que o deus-bem fez para salvar o homem?
Compadecido de seus anjos encadeados na terra, o deus-bem enviou um anjo voluntário como emissário, que se tornou o Filho de Deus. O corpo mortal de Cristo foi apenas uma aparência, visto que uma emanação do Bem não pode ter contato com a matéria, obra impura do deus-mal. Em sua paixão, o Filho de Deus tirou este invólucro carnal e assistiu, invisível, ao seu sacrifício.
Então segundo os cátaros, Jeová, o Deus dos judeus, era o deus-mal?
Sim. Foi Jeová, por intermédio dos judeus, se propôs em vão a supliciar e matar Cristo, enviado do deus-bem. Aos anjos decaídos Cristo levara os meios e o conhecimento para libertarem-se, graças ao Evangelho.
Quais as consequências dessa teoria?
Em primeiro lugar, como já foi dito acima, a negação do Velho Testamento. O encargo de Cristo foi uma simples missão num mundo satânico, sendo negadas a encarnação, paíxão e a ressurreição. O homem não foi criado à imagem de Deus, mas pelo demônio. Daí o ódio dos cátaros pela cruz e pelo sinal da cruz que se relacionam aos sofrimentos de Cristo e o ligam à matéria impura.
Os cátaros acreditavam em inferno?
Nem em inferno nem em purgatório, pois o impuro não poderia se aproximar do deus-bem e penetrar no reino supraterrestre. A purificação da alma deveria ser feita na Terra. Esta teoria, que salvava definitivamente todas as almas, abolia o inferno e a danação eterna era, de fato, consoladora.
PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3

quinta-feira, 20 de maio de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – Parte 3

image Continuando a nossa saga sobre as heresias da Idade Média, vamos ver a heresia de Pedro de Bruys e a dos cátaros, um dos principais movimentos da época. Como a heresia cátara é muito complexa, foi preciso desmembrá-la. Será retomada no próximo post.

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Quais as características da heresia de Pedro de Bruys?

De Bruys se atinha, ao que tudo indica, apenas aos Evangelhos, colocando em dúvida os demais livros do Novo Testamento, chegando mesmo a desconfiar da autenticidade da Epístola de São Paulo e de outros Apóstolos. Por outro lado, ele entendia que a Igreja, não o conjunto de suas propriedades ou bens materiais, mas a unitate congregatorum fidelium dos que creem nos Evangelhos, era o único verdadeiro testemunho apostólico, desprezando todo o resto, inclusive a sua hierarquia.

Seus seguidores rejeitaram o batismo das crianças, pois estas não poderiam ter uma fé pessoal consciente. Outro aspecto peculiar dos petrobrusianos é sua rejeição e condenação da cruz como símbolo tradicional do Cristianismo. Negavam também a eucaristia e o sacrifício da missa, sob a justificativa de que o corpo de Cristo foi dado apenas uma única vez, isto é, durante a última ceia.

O que distinguia a heresia dos cátaros das outras heresias do período?

O seu caráter dualista, que, nesse sentido, significa a crença de que a bondade existe apenas no mundo espiritual do deus bom e que o mundo material é mau e foi criado por um deus mau ou espírito chamado Satã. Esta concepção está próxima das seitas gnósticas que também tinham as mesmas ideias e foram igualmente disseminadas no início da Idade Média, nos Bálcãs e no Oriente Próximo, pelas seitas dos paulicianos e bogomilos. Os cátaros relacionam-se com estes dois últimos, que eram conhecidos no Ocidente como publicani (corruptela de paulicianos e também eco dos publicanos do Novo Testamento) ou bougres (isto é, búlgaros, pois na Bulgária localizavam-se os bogomilos) e mais tarde como cathari (=puros) ou albigenses, da cidade de Albi, um dos centros de influência herética no Sul da França. A palavra albigense muitas vezes se refere a todos os heréticos da região, inclusive os valdenses.

Quais os tipos de fontes usadas para se estudar as heresias cátaras?

Antes de mais nada, é bom salientar que muito pouco se sabe disso. Talvez os tratados cátaros, que pertenciam a uma pequena elite esotérica, tivessem sido eliminados, sem deixar vestígios, pelo aparato inquisitorial.

Entretanto, ainda existem três fontes para estudar a heresia:

a) os processos deixados pela inquisição;

b) os escritos dos polemistas que, para combaterem uma heresia, detalhavam os seus erros;

c) os manuais dos inquisidores compostos para orientar os seus iniciados no combate à heresia.

Como era a organização da igreja cátara?

Os bispos eram secundados por diáconos itinerantes, intermediários entre os bispos e os Perfeitos, cabendo-lhes a administração material das igrejas. Possuíam casa onde os Perfeitos viviam em comunidade e recebiam os neófitos para o estágio obrigatório. A nobreza herética confiava seus filhos aos Perfeitos, sobretudo as filhas, do mesmo modo que a nobreza católica as faziam entrar no convento. Essas casas, espalhadas por todo o Languedoc Ocidental, eram dirigidas por um superior ou superiora, além de serem uma instituição pública até o momento da Cruzada organizada contra os heréticos.

O que o crescimento da Igreja Cátara colocou em xeque?

O seu voto de probreza, pois o desenvolvimento de igrejas e bens materiais era inevitável. A acusação de avareza e cupidez imputada à Igreja Romana foi também lançada contra a Igreja Cátara.

Qual a principal divergência dentro da Igreja Cátara?

Havia dois partidos. De um lado, os que acreditavam que Satã, o criador do mundo, fora um anjo de Deus caído em desgraça. Do outro, os que julgavam ser ele uma divindade independente.

Qual era o consenso geral da Igreja Cátara?

A matéria é má e o homem um alienado habitando um mundo mau. O objetivo principal era que o homem deveria restaurar este mundo para a comunhão com Deus. Acreditavam na redenção dos espíritos, embora nem sempre na redenção universal. Acreditavam, igualmente, na transmigração das almas do homem para o homem, e do homem para a besta, pois os animais, segundo eles, também possuíam almas.

Tinham regras para jejuar e a carne era proibida. As relações sexuais eram vedadas e tinham horror à procriação, pois implicava o aprisionamento de seus espíritos ao mundo da carne. Acreditavam piamente no celibato e em qualquer forma ascética de renúncia ao mundo, olhando favoravelmente o suicídio.

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PARTE 1

PARTE 2

sábado, 8 de maio de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – Parte 2

image Continuando com a série sobre as heresias medievais, hoje vamos conhecer um pouco sobre o processo contra o herético e vamos conhecer também a heresia de Amaury de Bène.

Como era promovido o processo contra o herético?

O processo contra o herético muitas vezes era feito de tal modo que o acusado ignorava o nome do próprio acusador, sendo que mulheres, escravos ou crianças podiam servir de testemunhas de acusação, mas nunca de defesa. Para obter a confissão podia-se utilizar métodos que não deixavam de ser. De certa forma, torturas, como, por exemplo, a fadiga, propositalmente provocada, ou o enfraquecimento físico do acusado. Uma vez apurada a culpa, concedia-se ao réu um prazo para que se apresentasse espontaneamente ao tribunal. Caso isso não ocorresse, poderia ser denunciado pelo inquisidor e ser preso. Em caso de confissão de culpa, dava-se ao acusado a oportunidade de retratar-se, sendo que, neste caso, deveria submeter-se a uma série de penitências, flagelações, peregrinações e, em casos graves, à prisão. Porém, se o acusado persistisse em seu pecado, era julgado e entregue ao braço secular que, por sua vez, o cinduzia à fogueira.

Qual foi a principal atitude do Papa Gregório IX?

A fim de evitar que a Inquisição tivesse outras finalidades que não o combate à heresia, ligou-a diretamente à Igreja e ao papado. Algumas vezes, os bispos sentiram que a Inquisição intervinha excessivamente em seus direitos. Por isso, no Concílio de Viena, em 1312, ordenou a cooperação mútua entre os inquisidores papais e episcopais.

Afinal, como eram vistos os inquisidores?

Devemos levar em consideração que os inquisidores passaram a manejar um aparato de auxiliares, conselheiros, escribas, policiais, que faziam com que a função fosse vista com respeito e adquirisse dignidade. Mesmo porque o poder de excomungar senhores laicos ou príncipes fazia com que eles recebessem o apoio das autoridades laicas.

Por outro lado, sua respeitabilidade derivava do fato de destacarem-se pela erudição e conduta exemplar. Com o tempo, foram escritos manuais pelos inquisidores mais experientes que procuravam orientar os perseguidores das heresias sobre os seus fundamentos doutrinários e também sobre a técnica ou o modo de conseguir a confissão do acusado.

Quem foi Amaury de Bène?

Foi professor de Filosofia em Paris que chegou a ser convidado pelo rei Filipe Augusto para ser preceptor do delfim. Vinculou-se ao pensamento de Escoto Erígena e formulou uma concepção claramente panteísta. Tentou harmonizar sua concepção com os dogmas cristãos. Afirmava que o mundo momentaneamente diferenciado devia corresponder a três épocas classificadas sucessivamente sob a dependência de uma das três pessoas da Trindade. No curso da segunda época, cada fiel deve considerar-se como um membro de Jesus Cristo, e na terceira época, cada um poderá considerar-se como encarnação do Espírito Santo.

Qual seria a consequência desse pensamento?

É que cada homem seria submetido à ação salvadora direta do Espírito Santo, sem a mediação do simbolismo sacramental. De fato, segundo Amaury, os sacramentos substituíram a lei e seriam, por sua vez, substituídos pela ação imediata do Espírito Santo. Está claro que o pensamento de Amaury se chocava com a ortodoxia, uma vez que contradizia o dogma da eucaristia, o julgamento após a morte, a punição dos pecados, bem como os sacramentos. Já que a anulação final em Deus é o fim de tudo, fica suprimida a vida futura individual e deixa inutilizadas as recomendações purificadoras da Igreja.

Amaury foi condenado em 1207. Abandonou sua cátedra de Paris e retirou-se para um convento onde faleceu.

Quais foram os continuadores de Amaury de Bène?

Os amalricianos, que, por sinal, se aprofundaram na heresia. Falavam de uma tríplice encarnação de Deus, como Pai em Abraão, como Filho em Cristo e como Espírito Santo em cada crente. Negavam os sacramentos e as instituições eclesiásticas, viam no papa o Anticristo e pretendiam ilimitada liberdade moral. Foram descobertos em 1209, em Paris e condenados em Concílio em 1210. Seus membros foram degradados das ordens sagradas e entregues ao braço secular que os fez queimar. O corpo de Amaury foi desenterrado e reduzido a cinzas. Em 1215, o Concílio de Latrão renovou a condenação aos amalricianos.

Qual a influência dos escritos de Aristóteles sobre as heresias teológicas?

Aristóteles, ao ser traduzido, causou certa inquietação intelectual na Universidade de Paris. Não faltaram os que associassem seus textos às heresias de Amaury de Bène e de outro herege com tendências panteístas, chamado David de Dinant. Mas o fato é que o pensamento aristotélico não teve influência tão direta sobre estas heresias e nenhuma sobre as heresias populares do tipo da dos albigenses, valdenses ou dos beguinos, de quem falaremos adiante. Estas nasceram do sentimento popular e não do criticismo teológico; no ataque às instituições e costumes eclesiásticos e não na especulação filosófica.

Pode-se afirmar que a heresia de Amaury de Bène foi um elemento de transição entre as heresias teológicas e as populares?

Sim. O panteísmo de Amaury empregava a língua vulgar, possuía formas ontológicas precisas e simples e apresentava determinado caráter profético, antecipando o tipo de heresia popular joaquimita – do qual também falaremos mais tarde, que tanto influenciou a heresia medieval.

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Parte 1 aqui.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – Parte 1

image A Inquisição ainda hoje levanta debates acalorados e é considerada a maior mancha da Igreja Católica. Ela teve início com as heresias que desafiavam o poder do Papa e a hierarquia da Igreja. O que poucos sabem é que, no começo, a cúpula cátólica não sabia o que fazer com os hereges e que a radicalização contra eles nasceu do povo. Neste livro, Falbel destrincha as heresias – algumas com ideias próxima da gnose e outras bem destrambelhadas - e a reação da Igreja. A inquisição não será um objeto maior desta série, mas de outra a ser publicada a seu tempo.

LEITE DE PATO TAMBÉM É CULTURA!!! 

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Qual a diferença das primeiras heresias e aquelas que ocorreram nos séculos XII e XIII?

As primeiras heresias diferiam puramente pelo seu caráter filosófico e teológico que fazia especulação racional em torno dos princípios ou dogmas cristãos, em geral planos do pensamento que tratavam da Trindade, da natureza humana e divina de Cristo e da própria relação existente entre ambas, bem como às questões ligadas à essência da divindade. As heresias posteriores, isto é, as da Baixa Idade Média, possuíam cunho popular assentado sobre uma nova visão ética da instituição eclesiástica e do cristianismo como religião vigente na sociedade ocidental.

Quais as causas que levaram a uma oposição tão forte, e mesmo violenta, contra o corpo eclesiástico?

Na verdade, podemos ver em parte da crítica herética, uma tentativa de apontar os erros e os desvios da instituição eclesiástica e sua intervenção no poder secular à custa de missão espiritual. Enfim, uma tentativa de alertar a sociedade cristã de que os seus representantes desvirtuaram a verdadeira imagem da religião fundada por Cristo.

Quando a Igreja começou a tomar medidas mais enérgicas em relação aos hereges?

No século XI. Em especial, em relação aos cátaros que começavam a difundir intensamente suas doutrinas. Mesmo assim, a Igreja ainda hesitava em adotar providências mais extremas, pois dificilmente elas poderiam harmonizar-se com a caridade tão apregoada pelo cristianismo.

De onde partiu a radicalização?

Partiu de baixo para cima, ou seja, do fanatismo popular que tomava corpo à medida que se cristianizava a sociedade bárbaro-europeia. No ano de 1045, quando foram descobertos alguns heréticos em Châlons, as autoridades eclesiásticas recorregaram aos legisladores pois ainda não sabiam o que fazer com eles. A ausência de uma legislação fazia com que os hereges fossem tratados ora com clemência, ora com excessivo rigor. Quando a população de Colônia queimou certo número de cátaros em 1145, São Bernardo de Clairvaux recriminou os atos da multidão, embora tivesse aprovado seu zelo religioso, argumentando que a fé devia ser defendida pela persuasão e nunca pela violência.

Quem organizou o tribunal inquisitorial?

O Papa Gregório IX, em 1229, no Concílio de Toulouse. Lá foi criado oficialmente o Tribunal do Santo Ofício. Os dominicanos logo se puseram à disposição da nova instituição, cabendo-lhes a tarefa de legislar e condenar os heréticos, entregando-os ao braço secular.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A DEMÊNCIA NÃO TEM LIMITES

Coisa de louco

Hojatoleslam Kazem Sedighi, clérigo que faz a cabeça do presidente porralouca do Irã, Mahmud Ahmadinejad, disse que os terremotos são causados por “roupas reveladoras e atitudes promíscuas” de mulheres. É esse tipo de gente que a política externa do governo Lula bajula.

Via Claudio Humberto.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

AINDA A PEDOFILIA NA IGREJA: O QUE É INFORMAÇÃO E O QUE É CAMPANHA

Carlos Alberto Di Franco – O Globo – 5 de abril de 2010.

A imprensa brasileira tem noticiado a respeito da crise que fustiga a Igreja Católica com razoável serenidade e equilíbrio. Os casos de abuso sexual protagonizados por clérigos são, de fato, matéria jornalística inescapável. O que me impressiona, e muito, é a perda do sentido informativo e o inequívoco tom de campanha assumido por alguns jornais norte-americanos.

Infelizmente, os casos reais de abuso sexual, ocorridos nas últimas décadas, mesmo que tenham sido menos numerosos do que fazem supor certas reportagens, são inescusáveis. Nada pode justificar nem atenuar crimes abomináveis como o estupro e a pedofilia. Um só caso de pedofilia, praticado na Igreja Católica por um padre, um religioso ou uma religiosa, é sempre demais, é inqualificável.

Mas jornalismo não pode ser campanha. Devemos, sem engajamentos ou editorialização da notícia, trabalhar com fatos. Só isso nos engrandece. Só isso dá ao nosso ofício credibilidade e prestígio social. Pois bem, amigo leitor, vamos aos fatos.

O Vaticano recebeu 3 mil denúncias de abuso sexual praticado por sacerdotes nos últimos 50 anos. Segundo monsenhor Scicluna, chefe da comissão da Santa Sé para apuração dos delitos, 60% dos casos estão relacionados com práticas homossexuais, 30% com relações heterossexuais e 10% dos casos podem ser enquadrados como crimes de pedofilia. Os números reais de casos de pedofilia na Igreja são, portanto, muito menores.

Os abusos têm sido marcadamente de caráter homossexual e refletem um grave problema de idoneidade para o exercício do sacerdócio. Afinal, uma instituição que há séculos defende o celibato sacerdotal tem o direito de estabelecer os seus critérios de idoneidade, o seu manual de instruções para a seleção de candidatos. Quem entra sabe a que veio. É tudo muito transparente. Quem assume o compromisso o faz livremente. O que não dá, por óbvio, é para ficar com um pé em cada canoa. E foi exatamente isso o que aconteceu. A Igreja está enfrentando as consequências de anos e anos de descuido, covardia e negligência dos bispos na seleção e formação do clero.

Philip Jenkins, um especialista não católico de grande prestígio, publicou o estudo mais sério sobre a crise. Pedophiles and Priests: Anatomy of a Contemporary Crisis (Oxford, 214 págs.) é o mais exaustivo estudo sobre os escândalos sexuais que sacudiram a Igreja Católica nos Estados Unidos durante a década de 1990. Segundo Jenkins, mais de 90% dos padres católicos envolvidos com abusos sexuais são homossexuais. O problema, portanto, não foi ocasionado pelo celibato, mas por notável tolerância com o homossexualismo, sobretudo nos seminários dos anos 70, quando foram ordenados os predadores sexuais que sacudiram a credibilidade da Igreja.

O autor não nega o óbvio: que existiram graves desvios; e, mais, que os bispos fracassaram no combate aos delitos. Jenkins, no entanto, mostra como os crimes foram amplificados com o objetivo de desacreditar a Igreja. A análise isenta dos números confirma essa percepção. Na Alemanha, por exemplo, existiram, desde 1995, 210 mil denúncias de abusos. Dessas 210 mil, 300 estavam ligadas a padres católicos, menos de 0,2%. Por que só as 300 denúncias contra a Igreja repercutem? E as outras 209 mil denúncias? Trata-se, sem dúvida, de um escândalo seletivo.

As interpretações e as manchetes, em tom de campanha, não batem com o rigor dos fatos. Vamos a um exemplo local. Reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo, de 18/5/2009, página C4, abria com o seguinte título: Triplica o número de vítimas de abuso atendidas nas zonas sul e leste. E acrescentava ao título: Desde outubro, a média de novos casos passou de dez por mês para um por dia. Mesmo que o estudo se cinja às zonas leste e sul da cidade de São Paulo, por somarem milhões de habitantes, não deixa de ser uma amostra muito expressiva.

Trata-se de uma pesquisa realizada por várias ONGs de provada seriedade. Aponta como "novidade desconcertante" o fato de que "pais biológicos são a maioria entre agressores e, agora, avós também começam a aparecer neste grupo". No elenco da Rede Criança de Combate à Violência Doméstica, todos ou a quase totalidade dos agressores sexuais são casados. Por que então o empenho em fazer crer que os principais protagonistas de abusos sexuais são padres, e em atribuir a causa dos crimes ao seu compromisso celibatário?

Tentou-se, recentemente, atingir o próprio papa. Como lembrou John Allen, conhecido vaticanista e autor do livro The Rise of Benedict XVI, em recente artigo no The New York Times, o papa fez da punição aos casos de abuso uma prioridade de seu pontificado. "Um de seus primeiros atos foi submeter à disciplina dois clérigos importantes contra os quais pesavam denúncias de abuso sexual há décadas, mas que tinham sido protegidos em níveis bastante altos. Ele também foi o primeiro papa da história que tratou abertamente da crise." Bento XVI tem sido, de fato, firme e contundente.

Em recente carta ao Corriere della Sera, o senador italiano Marcello Pera, um laico no mais genuíno sentido italiano da palavra, assumiu a defesa do papa e foi ao cerne da polêmica. "Desencadeou-se uma guerra. Não propriamente contra a pessoa do papa, pois seria inviável. Bento XVI tornou-se invulnerável por sua imagem, sua serenidade, sua clareza e firmeza." A guerra continuará, "entre outras razões, porque um papa como Bento XVI, que sorri, mas não retrocede um milímetro, alimenta o embate".

Precisamos informar com o rigor dos fatos. Mas devemos, sobretudo, entender o que se esconde por trás de algumas manchetes e de certas interpretações.

PEDOFILIA E RETRETA

Os casos de pedofilia na Igreja Católica chegam, emfim, na turma dos fanfarrões que não perdem uma chance de aparecer.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

MAIS UM TRECHO DE “A OBSESSÃO ANTIAMERICANA”: O MITO DA TOLERÂNCIA MUÇULMANA

Lo que dicta la visión del mundo de los musulmanes es que toda la Humanidad debe respetar los imperativos de su religión, mientras que ellos, a su vez, no deben respeto alguno a las religiones de los demás, ya que entonces pasarían a ser renegados que merecerían la ejecución inmediata. La «tolerancia» musulmana tiene sentido único. Es la que los musulmanes exigen para ellos solos y que nunca demuestran a los demás. El Papa, deseoso de mostrarse tolerante, autorizó, alentó incluso, la edificación de una mezquita en Roma, ciudad en la que está enterrado San Pedro, pero no se puede ni pensar en la construcción de una iglesia en La Meca ni en parte alguna de Arabia Saudí, so pena de profanar la tierra de Mahoma. En octubre de 2001, voces islámicas, pero también occidentales, no cesaron de pedir al Gobierno americano que suspendiera las operaciones militares en Afganistán durante el mes del Ramadan, que iba a comenzar a mediados de noviembre. Con guerra o sin ella, la decencia impone — decían los bien intencionados—ciertas  consideraciones para con las fiestas religiosas de todos. Hermosa máxima, salvo que los musulmanes se consideran los únicos exentos de cumplirla. En 1973, Egipto no vaciló en atacar a Israel el día mismo de Kipur, la fiesta religiosa judía más importante, guerra que pasó a la Historia precisamente con la denominación de «guerra de Kipur».

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

AS NOVAS CATÓLICAS

Vocês devem saber que existe por aí uma excrescência chamada Católicas pelo Direito de Decidir. É um grupo de mulheres que se dizem católicas – como o nome já diz – mas defendem o aborto, que é condenado pela Igreja. Ao invés de mudarem de religião ou fundarem a sua própria seita, elas acham que é melhor encher o saco do papa: pelo menos garantem um espacinho na TV e nos jornais. Em vista disso, não me admiraria se outras católicas se unissem e criassem alguns dos grupos abaixo:
1. Católicas pelo direito de fumar maconha na hora da homilia
2. Católicas pelo direito de ter orixá de cabeça
3. Católicas pelo direito dos padres pedófilos
4. Católicas pelo direito de suicídio
5. Católicas pelo direito de desfilar com a bunda de fora no carnaval
6. Católicas pelo direito de lésbicas celebrarem missas
7. Católicas pelo direito de fazer eutanásia em velhinhos que dão trabalho
8. Católicas pela democratização da comunicação com os mortos
9. Católicas pelo direito de acreditar que Deus-Pai é um extraterrestre
10. Católicas pelo direito de serem sodomizadas pelo Papa.