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domingo, 20 de novembro de 2011

NA ESPANHA…

Leio que intelectuais estão preocupados com a sova que a esquerda levará hoje na Espanha. É sempre assim: quando a direita vai ganhar, todos ficam preocupados com o "retrocesso"; quando a esquerda vai ganhar, todos os rostinhos ficam iluminados e vislumbrando um futuro radiante. Bom, na Espanha a iluminação rende 20% de desemprego.

Leio também que estão preocupados com a ligação do PP (que deve ganhar hoje) com o Cristianismo, essa religião perigosíssima que inspirou terroristas a derrubar as Torres Gêmeas e que quer varrer Israel do mapa...

Ops! Foi mal, a religião é outra...

Leio também que um "filósofo" teme que a direita leve ao ressurgimento de ideias franquistas como "defesa da educação privada, descrédito do que é público e desprezo pela igualdade de oportunidades." O "intelectual" deve ter estudado muito pouco e faz mero terrorismo eleitoral. Afinal, nada foi mais antimercado, antiliberal, anticapital do que o... franquismo, que fez a Espanha parar no tempo. Nada mais igualitário do que o franquismo, que a exemplo de ideologias que o inspiraram - fascismo e, por tabela, socialismo - empobreceu a Espanha deixando todo mundo na merda, promovendo, inclusive, um AMPLO PROGRAMA DE ESTATIZAÇÃO. Como pode ser franquista alguém que "desacredita o que é público"?

É claro que o governo de direita pode fracassar, mas a isso chamamos alternância de poder. A isso chamamos democracia. Se o PP tiver maioria esmagadora, nada melhor do que as próximas eleições para corrigirem isso e não um "patrulhamento preventivo"...

quarta-feira, 10 de março de 2010

CHÁVEZ , FARC E ETA

A Justiça da Espanha está começando a destrinchar os turvos relacionamentos entre o Demente de Caracas e os seus amiguinhos gente-boa das Farc e da Organização Separatista Basca ETA, responsáveis por atentados, sequestros, assassinatos -essas coisas admiradas pela esquerda. Se a investigação for profunda, a justiça espanhola vai chegar ao Foro de São Paulo. Talvez agora – já que a notícia saiu no El País –, alguns jornalistas comecem a parar de pensar que isso seja coisa de, como é mesmo?, “vivandeiras de direita” e comecem a se informar mais do que é essa organização política. Até porque taí a cumplicidade Lula com as masmorras de Fidel – mais Foro de São Paulo que isso não dá, né? Taí Lula seguindo os passos de Chávez, apoiando o Irã. Mais Foro de São Paulo que isso, só se desenhar.

Elio Gaspari já falava que a América Latina vai bem. Vai. Com governos apoiando a ditadura castrista em Cuba e o programa nuclear do Irã.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte final

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Última parte sobre a série de posts baseada no livro de Antony Beevor sobre a Guerra Civil Espanhola, o campo de testes de nazistas e comunistas para a Segunda Guerra Mundial.

Qual a linha do Comintern durante a guerra?

Seus integrantes diziam que a ajuda soviética à Espanha republicana visava salvaguardar a democracia e insistia que o governo seguisse a estratégia da frente popular que ajudava os camponeses proprietários de terra e atraía as classes médias. Na verdade, Stálin estava interessado em evitar quaisquer embaraços à sua política externa, que, de um lado, evitava provocar a Alemanha nazista e, de outro, buscava reaproximar-se da Grã-Bretanha e da França. Era preciso manter a república parlamentarista “para que impedir os inimigos da Espanha a vejam como uma “república comunista”.

As Brigadas Internacionais tiveram problemas internos?

Vários. Entre eles podemos citar a irritação com a existência de “campos de reeducação” administrados por oficiais soviéticos e guardados por comunistas espanhóis armados com os fuzis automáticos mais modernos. Outro ponto era que jamais se mencionava aos voluntários o tempo de serviço – e assim eles julgavam que estavam livres depois de determinado tempo. Mas seus passaportes foram tomados no ato do alistamento.

Os líderes das brigadas, alarmadíssimos com a possibilidade de as histórias de descontentamento chegarem até seus países de origem, impuseram medidas cada vez mais duras. Cartas eram censuradas e quem criticasse a competência dos líderes do Partido enfrentava o campo de prisioneiros e até pelotões de fuzilamento (o habitat natural dos comunistas). As licenças eram canceladas e alguns voluntários que, sem autorização, tiraram alguns dias que lhes deviam foram fuzilados por deserção ao voltarem à sua unidade. A sensação de terem sido enganados por uma organização pela qual tinham perdido afinidade fez até alguns voluntários se passarem para o lado nacionalista. Outros tentaram artifícios pouco originais, como disparar uma bala no próprio pé quando limpavam o fuzil.

A maioria, ao perceber que havia sido enganada, ofendeu-se com o insulto à sua inteligência. Tiveram que segurar a língua para evitar as atenções do Partido. Depois, ao voltarem para casa, costumavam ficar em silêncio para não prejudicar a causa republicana como um todo. Os que falaram, como George Orwell, viram fechadas as portas dos editores de esquerda.

É verdade que os republicanos chegaram a comprar armas dos nazistas?

Sim. Mesmo durante a Guerra Civil a República comprou armas da Alemanha nazista, aliada mais importante do general Franco. Hoje, pesquisas recentes mostraram ser verdade o que havia muito se suspeitava: o general Hermann Goering, ministro-presidente da Prússia e comandante-em-chefe da Luftwaffe, vendia armas à República enquanto os seus próprios homens lutavam por Franco.

Há algum paralelismo entre o regime de Franco e o comunismo?

Claro que há. Fascismo e comunismo são irmãos gêmeos e qualquer pessoa com um mínimo de estudo nessa área pode afirmar isso. Mas não deixa de ser um paradoxo: Franco queria acabar com a ameaça vermelha em seu país e seu período de governo foi recheado de atitudes que fariam Stálin aplaudi-lo de pé. Nada demais para quem admirava Hitler, diga-se de passagem. Os anticomunistas estatizaram a rede ferroviária que teve resultados pífios devido à péssima administração. Os programas de estatização de Franco, segundo alguns comentaristas foram bem parecidos com os dos Estados-satélite sovíeticos depois de 1945.

Outro paralelo foi o medo obsessivo de contágio ideológico estrangeiro. Enquanto a maioria dos principais assessores soviéticos que voltaram da Espanha foram forçados pelo NKVD a confessar contatos traiçoeiros no exterior e depois fuzilados, na Espanha nacionalista a retórica exigiu uma cirurgia drástica para salvar o organismo político. O adido de imprensa de Franco, conde de Alba y Yeltes, disse a um inglês durante a guerra que tinham que livrar a Espanha do vírus do bolchevismo, se necessário pela eliminação de um terço da população masculina espanhola. Agora que os nacionalistas tinham quase todos os republicanos prisioneiros em seu poder, podiam dedicar-se à sua limpeza cuidadosa da Espanha.

Se a República tivesse ganhado, quantos teriam sido executados e morreriam nos campos de prisioneiros?

É uma pergunta impossível de se responder. Como destacaram vários historiadores, o vencedor numa guerra civil sempre mata mais que o perdedor. Tudo depende do regime republicano que viria a surgir. Se fosse um regime comunista, então, a julgar por outras ditaduras comunistas, o número seria bem alto, devido à natureza paranóica do sistema. Mas na Espanha muito também dependeria de ser uma versão stalinista ou uma variedade mais espanhola, que talvez evoluísse.

Pode-se dizer então que a Guerra Civil Espanhola foi um campo de testes para armamentos e táticas que seriam usadas na Segunda Guerra Mundial?

Isso o governo nazista reconheceu desde o princípio. O Exército Vermelho também viu a oportunidade, mas, devido à ortodoxia militar stalinista depois da execução do marechal Tukhatchevski, não pôde aproveitá-la muito. A Legião Condor da Luftwaffe, pelo contrário, foi meticulosa em seus relatórios sobre os efeitos dos novos sistemas de armas.

O que gerou a política de não-intervenção de inspiração britânica?

Para os republicanos, uma grande paixão e ofensa moral. Parecia impensável que um governo legitimamente eleito de um país não pudesse comprar armas para se defender. Também há poucas dúvidas sobre a hipocrisia de manter uma política que manifestamente não funcionava, enquanto o comitê em Londres, que incluía as três principais potências intervencionistas – Alemanha, Itália e União Soviética -, fingia o contrário. É compreensível que a raiva maior tenha sido reservada ao governo britânico, que, mesmo não tendo proposto oficialmente o plano de não intervenção, era com toda certeza a principal força por trás dele. Dois primeiros-ministros, Chamberlain e Baldwin, e dois secretários do Exterior, Eden e Halifax, costumam ser acusados de participar de uma trama conservadora para dar apoio a Franco. Embora extremamente plausível, considerando suas amizades e preferências pessoais, ao que tudo indica essa é uma distorção da verdade.

O que uma vitória republicana produziria? Um governo liberal de esquerda ou regime comunista linha-dura?

Havia a determinação comunista de eliminar aliados de esquerda assim que a guerra fosse vencida contra a direita. A luta contra os anarquistas – que fizeram um governo relativamente bom na Catalunha – seria inevitável. O Pravda declarou que “a limpeza de elementos trotskistas e anarcossindicalistas será realizada com a mesma energia que na União Soviética”. A estratégia da Frente Popular era apenas para “o momento”. Os stalinistas, pela própria natureza de sua ideologia, não se dispunham a dividir o poder com mais ninguém a longo prazo. É presumível que um governo democrático recebesse ajuda do Plano Marshall depois da Segunda Guerra. Então uma economia razoavelmente livre, quase com certeza, recuperaria o país a partir dos anos 50, já que o período pós-guerra seria desesperador fosse qual fosse o resultado da Guerra Civil. Com um governo esquerdista autoritário, talvez abertamente comunista, a Espanha seria um Estado semelhante às repúblicas ditas populares do centro da Europa ou dos Bálcãs até depois de 1989.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 3 de 4

image E aqui continuamos a nossa saga através da Guerra Civil Espanhola. Esta é a penúltima parte e falaremos, entre outras coisas de Guernica. Como não custa lembrar TODAS as respostas foram tiradas do livro que dá título a este post.

No que diferia a propaganda republicana da nacionalista?

Muitas vezes muito pouco. Ambos os lados aproveitavam incidentes isolados para defender ideias gerais.

O que dizia a propaganda republicana?

Os republicanos espalhavam histórias de horror sobre regulares mouros que cortavam a mão de crianças que fechavam o punho, para o caso de estarem fazendo a saudação esquerdista. Também contavam milagres seculares, como as bombas nacionalistas que não explodiam porque continham mensagens de solidariedade de operários estrangeiros em vez de explosivos. Houve, sem dúvida, casos de operários de fábricas de munição que praticaram sabotagem, mas o exagero da propaganda republicana desenvolveu tamanho apego à vã esperança que cabou se tornando uma grande desvantagem. Depois que o governo despertava um louco otimismo em relação à determinada ofensiva, ficava praticamente impossível admitir o fracasso, e isso levou à perda de grande quantidade de homens e material bélico na defesa de ganhos inúteis.

O que dizia a propaganda nacionalista?

As suas primeiras notícias traziam “massacres vermelhos” a ponto da imprensa católica estrangeira acorrer em apoio ao levante nacionalista no seu começo. A acusação mais sensacional foi o estupro de freiras, sendo que uma invenção semelhante datava da Idade Média, quando foi usada para justificar uma chacina de judeus. Os nacionalistas pisavam em terreno mais firme ao condenarem o assassinato de padres e tiveram o apoio do Papa, que declarou que os padres eram mártires. A maré só começou a virar a favor da República em novembro de 1936, com o bombardeio dos bairros operários e do Hospital San Carlos durante a batalha de Madri. Cinco meses depois, a destruição de Guernica deu à República sua maior vitória na guerra propagandística, principalmente porque os bascos eram conservadores e católicos.

Afinal, Guernica foi bombardeada?

A pergunta parece uma loucura, mas é que tem muita gente que não acredita na destruição de Guernica.

É claro que ela foi bombardeada. E foi sim bombardeada pela Legião Condor alemã. Quem diz que não houve o bombardeio talvez não tenha tido acesso ao diário de guerra de um dos comandantes da Legião Condor, Wolfram Von Richtofen, que contradiz por completo a versão nacionalista de que o ataque teria sido feito pelos republicanos:

“K/88 [forças de bombardeio da Legião Condor] foi apontada para Guernica, com a intenção de desorganizar e fazer cessar a retirada dos vermelhos, que precisam passar por aqui.”

A que horas deu-se o início do bombardeio de Guernica?

Às 4 e meia da tarde, uma segunda-feira, 26 de abril. Um único bombardeiro Heinkel 111 da “esquadrilha experimental” da Legião Condor chegou sobre a cidade, despejou sua carga no centro e logo desapareceu.

E o que aconteceu em seguida?

A maior parte da população saiu dos abrigos e foi ajudar os feridos. Mas não contavam com a volta da esquadrilha, 15 minutos depois, lançando bombas de vários tamanhos. Os que correram de volta aos abrigos foram sufocados pela fumaça e pela poeira e ficaram alarmados porque já estava evidente que os abrigos não resistiriam às bombas mais pesadas. As pessoas correram para os campos ao redor da cidade e as esquadrilhas de caças Heinkel 51 chegaram metralhando e lançando granadas sobre os homens sobre as mulheres e as crianças. A parte principal do ataque sequer começara. Às 17:15, ouviu-se o som dos motores áereos. Os soldados identificaram-nos imediatamente: eram os Junkers 52. Três esquadrilhas, vindas de Burgos, cobriram a cidade de bombas sistemáticas em ataques revezados de vinte minutos durante duas horas e meia.

De que eram constituídas as cargas dos aviões?

De bombas pequenas e médias, além de outras de 250 quilos, bombas antipessoais de 20 libras (nove quilos) e bombas incendiárias. As incendiárias eram jogadas dos Junkers em tubos de alumínio de um quilo, como se fossem confete metálico.

Qual foi o número de baixas?

Segundo o governo basco, as baixas corresponderam a cerca de um terço da população da cidade – 1654 mortos e 889 feridos, embora pesquisas mais recentes indiquem que não foram mortas mais de trezentas pessoas. E aqui, é claro, também entrou em ação a máquina bem azeitada de propaganda da esquerda. Enquanto os números de mortos em Guernica “aumentavam”, os da Prisão Modelo de Paracuelos de Jarama, controlada pelos republicanos, foram “esquecidos”. Alguns deles simples eram simpatizantes dos nacionalistas, mas foram fuzilados. Seu número exato: 970 mortos. A ordem dada era executá-los e ocultar a responsabilidade dos republicanos. Houve um pequeno grupo que foi liberado para demonstrar às embaixadas estrangeiras o “humanitarismo” da República.

Parte 1

Parte 2

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 2 de 4

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E continuamos com a história da guerra civil espanhola. Todas as respostas foram tiradas do livro que ilustra o post. Esta é a segunda parte. Ainda faltam duas.

Quais as diferenças entre o falangismo, o nazismo e o fascismo?

O falangismo diferia do nazismo e do fascismo em sua natureza profundamente conservadora. Mussolini usava símbolos romanos e imagens imperiais em seus discursos apenas pelo efeito propagandístico. A Falange, pelo contrário, usava fraseologia moderna e revolucionária mas permanecia fundamentalmente reacionária. A Igreja era a essência da Hispanidad. O novo Estado “se inspiraria no espírito da religião católica que é tradição na Espanha.” Os seus símbolos eram os de Fernão e Isabel: o jugo do Estado autoritário e as flechas da aniquilação para acabar com a heresia. Não só pegaram emprestados os símbolos como tentaram reviver a mentalidade castelhana. O falangista ideal era imaginado como “meio monge, meio soldado”. A exemplo do que já foi dito na série “Fascismo de esquerda” em relação ao nazismo e ao fascismo, os falangistas também possuíam aspectos socialistas. Alguns falangistas atacavam a “falência social do capitalismo” e denunciavam as condições de vida dos operários e camponeses, mas consideravam o marxismo repugnante como ideologia por não ser espanhol e porque a luta de classes enfraquecia a nação. O país tinha que estar fortemente unido num sistema no qual o empregador não pudesse explorar o empregado.

Houve por parte do Comintern alguma preocupação em ocultar a revolução que estaria em marcha na Espanha?

Sim. Por incrível que pareça, os defensores mais loquazes da propriedade não eram os republicanos liberais, mas o Partido Comunista e seu ramo catalão, o PSUC. Ambos seguiam a linha do Comintern de ocultar a revolução. La Pasionária (cujo bordão “No pasarán” é um plágio de uma fala de Petain) e outros membros do seu comitê central negaram enfaticamente que algum tipo de revolução estivesse acontecendo na Espanha e defenderam com todo vigor empresários e pequenos proprietários. Isso numa época em que camponeses ricos ou cúlaques morriam nos Gulags. O Comintern, sem admitir de modo algum uma contradição tão flagrante, registrou as palavras de ordem comunistas recomendadas para a região rural nos arredores de Valência: “Respeitamos os que querem trabalhar em sua terra como um coletivo, mas também pedimos respeito por aqueles que querem cultivar a sua terra individualmente” e “Oprimir os interesses dos pequenos fazendeiros é oprimir os pais de nossos soldados”. Essa postura anrirrevolucionária receitada por Moscou levou em grande número elementos da classe média para as fileiras comunistas.

Por que Mussolini torcia pela criação de um estado fascista no Mediterrâneo?

Não é  que ele só torcesse por isso. A verdade é que ele mal podia esperar por isso, sobretudo um estado que estaria em dívida com ele. Sua grande ambição era rivalizar com o poderio naval britânico e desafiar os franceses no norte da África. O aliado espanhol poderia controlar os estreitos tomando Gibraltar e permitir a possibilidade de bases nas Ilhas Baleares, mas sua frota provavelmente não rivalizaria com a dele. A conquista da Abissínia por Mussolini aumentara muito suas ilusões sobre o poderio italiano.

Por que Hitler ajudou Franco?

Por razões estratégicas. Uma Espanha fascista seria uma ameaça à retaguarda da França, assim como à rota britânica para o Canal de Suez. Havia até a possibilidade tentadora de bases de submarinos no litoral atlântico (De vez em quando os portos espanhóis de Vigo, El Ferrol, Cádiz e Las Palmas foram usados durante a Segunda Guerra Mundial.) A guerra civil serviu também para desviar a atenção de sua estratégia centro-europeia, ao mesmo tempo em que constituía uma oportunidade de treinar os homens e experimentar táticas e equipamento.

O papel das Brigadas Internacionais foi superdimensionado?

Sim. A história das Brigadas foi distorcida de várias formas não só devido à  propaganda que exagerou seu papel de forma desproporcional em relação às formações espanholas; surgiu a impressão, principalmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, de que eram compostas de intelectuais de classe média e “Beau Gestes” ideológicos mortos em ação. Na verdade, quase 80% dos voluntários da Grã-Bretanha eram trabalhadores braçais que largaram o emprego ou estavam desempregados. Alguns ficaram contentes de fugir da apatia do desemprego; outros já vinham combatendo fascistas em lutas de rua. Mas a maioria tinha pouca noção do que realmente significava a guerra.

Os nacionalistas se aproveitaram do medo do comunismo?

Sim. Eles afirmavam representar a causa do cristianismo, da ordem e da civilização ocidental contra o “comunismo asiático”. Para reforçar essa versão dos fatos, alegavam, com base em documentos forjados, que os comunistas tinham planejado uma revolução com 150 mil soldados em tropas de choque e 100 mil na reserva em 1936, golpe que o levante nacionalista impedira. Declararam que o resultado das eleições de 1936 não era válido, embora a Ceda e os líderes monarquistas tivessem-no aceitado na época. Concentraram-se em apresentar a vida na zona republicana como um massacre perpétuo de padres, freiras e inocentes, acompanhado da destruição frenética de igrejas e obras de arte. E, para justificar por que não tinham conseguido tomar Madri, afirmaram que meio milhão de comunistas estrangeiros lutavam na Espanha.

Qual era a defesa dos republicanos?

Na verdade, era supersimplificada. Os republicanos alegavam que tinham sido eleitos legalmente em 1936 e depois foram atacados por generais reacionários auxiliados pelas ditaduras do Eixo. Assim, a República representava a causa da democracia, da liberdade e do esclarecimento contra o fascismo. A propaganda estrangeira da República enfatizava que ela era o único governo legal e democrático da Espanha. É claro que isso era verdade, comparado à ilegalidade e do autoritarismo de seus adversários, mas houve ocasiões em que nem os políticos liberais e de centro-esquerda respeitaram sua própria constituição. O levante de outubro de 1934 muito prejudicou a sua causa contra os rebeldes.

Quando os nacionalistas sentiram que estavam perdendo a guerra da propaganda?

Na verdade, vários fatores contribuíram para isso. Primeiro, havia uma diferença fundamental na atitude dos comandos militares adversários no trato com a imprensa. Os nacionalistas costumavam ver jornalistas como espiões potenciais e devam-lhes pouca liberdade de movimento, principalmente caso pudessem testemunhar um episódio de limpeza.

Os terminais telegráficos internacionais estavam em território republicano, e assim os joranlistas daquela zona tinham suas reportagens publicadas primeiro. As notícias da zona nacionalista costumavam chegar desatualizadas.

Os jornalistas também eram afetados pelas emoções da época. Muitos se tornaram defensores fiéis e muitas vezes acríticos da República depois do terrível cerco de Madri. Sua dedicação afetou a cobertura de questões posteriores, como as manobras do Partido Comunista para assumir o controle. Os ideais da causa antifascista anestesiaram muitos deles para aspectos da guerra que se mostraram constrangedores.

Havia também vários tipos de censura e pressão que afetavam as reportagens publicadas em outros países. Iam dos comunicados com tendência propagandística dos encarregados das relações públicas do governo e da censura republicana até os preconceitos políticos ou comerciais do editor.

A primeira parte está aqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 1

image Imagine que você é um espanhol comum, sem grandes paixões políticas e ideológicas e que tenta levar sua vida de uma maneira normal, frequentando os amigos, levando os filhos no colégio, bebericando de vez em quando, ganhando honestamente o seu dinheiro. De repente, a esquerda vence as eleições – ela, que já tinha tentado dar um golpe de estado anos antes – e a direita, revoltada, resolve promover um levante para derrubar o governo eleito legalmente. Para onde correr? Da noite para o dia, você terá que escolher entre os Brancos, os nacionalistas de Franco e os comunistas da Frente Popular. É algo assim como escolher entre o câncer e a aids.

Retomando as “séries históricas” do LEITE DE PATO, no esquema de perguntas e respostas baseadas no livro “A batalha pela Espanha”, de Antony Beevor, este blog tentará mostrar o que foi a Guerra Civil Espanhola. Claro que tudo isto é um pequeno pedaço do livro altamente detalhista de Beevor, mas já dá pra se ter uma noção do que foi o conflito que antecedeu a Segunda Guerra Mundial.

Esta série será dividida em quatro partes.

*     *     *

É correto afirmar que a Guerra Civil Espanhola foi um confronto entre esquerda e direita?

Trata-se de uma simplificação enganosa. Surgiram dois outros eixos de conflito: o centralismo estatal contra a independência regional e o autoritarismo contra a liberdade do indivíduo. As forças nacionalistas da direita eram muito mais coesas porque, com poucas exceções, combinavam três extremos coesivos. Eram ao mesmo tempo de direita, centralistas e autoritárias. A República, por outro lado, constituía um caldeirão de incompatibilidades e suspeitas mútuas, com centralistas e autoritários, principalmente comunistas, enfrentando a oposição de regionalistas libertários.

A Guerra Civil Espanhola continua a ser um dos poucos conflitos modernos cuja história foi escrita com mais eficácia pelos perdedores que pelos vencedores.

Se a coalizão de direita tivesse vencido as eleições de 1936, a esquerda aceitaria o resultado?

Há fortes suspeitas de que não. O líder socialista Largo Caballero ameaçou abertamente, antes das eleições, que, se a direita vencesse, haveria uma guerra civil declarada. Caballero, é bom frisar, declarou que queria uma República sem classes, mas para conseguir isso uma classe teria de desaparecer. Isso era uma repetição óbvia da intenção declarada de Lênin de eliminar a burguesia.

Mas uma vitória da esquerda, em 1937 ou 1938, teria levado a uma escala de execuções comparável à de Franco?

É claro que é impossível saber e não se pode julgar inteiramente pela guerra civil russa, mas esta é ainda uma pergunta que não se deve rejeitar. O vencedor de qualquer guerra civil, como afirmaram vários historiadores, está fadado a matar mais devido ao ciclo de medo e ódio.

Por que o anarquismo se tornou a maior força junto à classe operária espanhola?

A estrutura proposta de comunidade cooperativas livremente associadas correspondia às tradições profundamente enraizadas de ajuda mútua, e a organização federalista falava aos sentimentos anticentralistas. Também constituía uma forte alternativa moral a um sistema político corrupto e a uma Igreja hipócrita. Muitos observadores ressaltaram o otimismo ingênuo que o anarquismo inspirava nos camponeses sem terra da Andaluzia. Muito também foi dito sobre o modo como a ideia foi disseminada por personagens ascéticos, quase santos, e como os convertidos largavam o fumo, o álcool e a infidelidade (conquanto rejeitassem o casamento oficial). Chegou a ser descrito como uma religião secular. A intensidade deste primeiro anarquismo levou os convertidos a acreditar que o mundo veria que a liberdade e a ajuda mútua eram a única base da sociedade naturalmente organizada. Bastaria abrir os olhos do povo, libertar o enorme potencial de boa vontade e deflagrar o que Bakunin chamava de “criatividade espontânea das massas”.

Por que o desenvolvimento dos socialistas foi lento na Espanha?

A sociedade espanhola era predominantemente agrícola e Marx sentia profundo desprezo pelo campesinato, o qual chamava de “idiotia da vida rural”. Ele acreditava que o capitalismo só seria derrubado pela sua própria criação, o proletariado industrial. Mas na Espanha, a maior parte das indústrias se concentrava na Catalunha, bastião do anarquismo. Além disso, a ênfase que os marxistas davam ao estado centralizado ampliava seu insucesso. Os adversários dos marxistas, mesmo nos movimentos de esquerda, chamavam-nos de los autoritarios.

Como era visto o exército espanhol antes da Guerra?

Embora basicamente reacionário, às vezes era visto como aliado do povo contra os políticos corruptos e como força de regeneração nacional.

Qual a diferença de votos nas eleições de 1936, a última da Espanha antes da Guerra Civil?

A Frente Popular, de esquerda, venceu por pouco mais de 150 mil votos de diferença. A lei eleitoral que beneficiara a direita em 1933 agora ajudara a esquerda. A Frente Popular recebeu a maioria das cadeiras das Cortes. Mesmo assim, ignorou a estreiteza de sua vitória e passou a se comportar como se tivesse recebido um mandato avassalador para efetivar a mudança revolucionária.

Quais as consequências econômicas da vitória da Frente Popular?

Antes de mais nada, é bom ressaltar que a Espanha passava por uma grave crise financeira desde 1931. Mas assim que venceram as eleições de 1936, os trabalhadores fizeram enormes exigências salariais, muito além do que as fábricas e fazendas poderiam suportar. As greves se multiplicaram, o desemprego aumentou, o valor da peseta caiu muito no câmbio internacional. O gabinete de transição não conseguiu equilibrar a situação. A impressão geral de um colapso da lei e da ordem caiu como um presente nas mãos da direita antidemocrática.

CONTINUA EM BREVE.