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sábado, 27 de fevereiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte final

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Última parte sobre a série de posts baseada no livro de Antony Beevor sobre a Guerra Civil Espanhola, o campo de testes de nazistas e comunistas para a Segunda Guerra Mundial.

Qual a linha do Comintern durante a guerra?

Seus integrantes diziam que a ajuda soviética à Espanha republicana visava salvaguardar a democracia e insistia que o governo seguisse a estratégia da frente popular que ajudava os camponeses proprietários de terra e atraía as classes médias. Na verdade, Stálin estava interessado em evitar quaisquer embaraços à sua política externa, que, de um lado, evitava provocar a Alemanha nazista e, de outro, buscava reaproximar-se da Grã-Bretanha e da França. Era preciso manter a república parlamentarista “para que impedir os inimigos da Espanha a vejam como uma “república comunista”.

As Brigadas Internacionais tiveram problemas internos?

Vários. Entre eles podemos citar a irritação com a existência de “campos de reeducação” administrados por oficiais soviéticos e guardados por comunistas espanhóis armados com os fuzis automáticos mais modernos. Outro ponto era que jamais se mencionava aos voluntários o tempo de serviço – e assim eles julgavam que estavam livres depois de determinado tempo. Mas seus passaportes foram tomados no ato do alistamento.

Os líderes das brigadas, alarmadíssimos com a possibilidade de as histórias de descontentamento chegarem até seus países de origem, impuseram medidas cada vez mais duras. Cartas eram censuradas e quem criticasse a competência dos líderes do Partido enfrentava o campo de prisioneiros e até pelotões de fuzilamento (o habitat natural dos comunistas). As licenças eram canceladas e alguns voluntários que, sem autorização, tiraram alguns dias que lhes deviam foram fuzilados por deserção ao voltarem à sua unidade. A sensação de terem sido enganados por uma organização pela qual tinham perdido afinidade fez até alguns voluntários se passarem para o lado nacionalista. Outros tentaram artifícios pouco originais, como disparar uma bala no próprio pé quando limpavam o fuzil.

A maioria, ao perceber que havia sido enganada, ofendeu-se com o insulto à sua inteligência. Tiveram que segurar a língua para evitar as atenções do Partido. Depois, ao voltarem para casa, costumavam ficar em silêncio para não prejudicar a causa republicana como um todo. Os que falaram, como George Orwell, viram fechadas as portas dos editores de esquerda.

É verdade que os republicanos chegaram a comprar armas dos nazistas?

Sim. Mesmo durante a Guerra Civil a República comprou armas da Alemanha nazista, aliada mais importante do general Franco. Hoje, pesquisas recentes mostraram ser verdade o que havia muito se suspeitava: o general Hermann Goering, ministro-presidente da Prússia e comandante-em-chefe da Luftwaffe, vendia armas à República enquanto os seus próprios homens lutavam por Franco.

Há algum paralelismo entre o regime de Franco e o comunismo?

Claro que há. Fascismo e comunismo são irmãos gêmeos e qualquer pessoa com um mínimo de estudo nessa área pode afirmar isso. Mas não deixa de ser um paradoxo: Franco queria acabar com a ameaça vermelha em seu país e seu período de governo foi recheado de atitudes que fariam Stálin aplaudi-lo de pé. Nada demais para quem admirava Hitler, diga-se de passagem. Os anticomunistas estatizaram a rede ferroviária que teve resultados pífios devido à péssima administração. Os programas de estatização de Franco, segundo alguns comentaristas foram bem parecidos com os dos Estados-satélite sovíeticos depois de 1945.

Outro paralelo foi o medo obsessivo de contágio ideológico estrangeiro. Enquanto a maioria dos principais assessores soviéticos que voltaram da Espanha foram forçados pelo NKVD a confessar contatos traiçoeiros no exterior e depois fuzilados, na Espanha nacionalista a retórica exigiu uma cirurgia drástica para salvar o organismo político. O adido de imprensa de Franco, conde de Alba y Yeltes, disse a um inglês durante a guerra que tinham que livrar a Espanha do vírus do bolchevismo, se necessário pela eliminação de um terço da população masculina espanhola. Agora que os nacionalistas tinham quase todos os republicanos prisioneiros em seu poder, podiam dedicar-se à sua limpeza cuidadosa da Espanha.

Se a República tivesse ganhado, quantos teriam sido executados e morreriam nos campos de prisioneiros?

É uma pergunta impossível de se responder. Como destacaram vários historiadores, o vencedor numa guerra civil sempre mata mais que o perdedor. Tudo depende do regime republicano que viria a surgir. Se fosse um regime comunista, então, a julgar por outras ditaduras comunistas, o número seria bem alto, devido à natureza paranóica do sistema. Mas na Espanha muito também dependeria de ser uma versão stalinista ou uma variedade mais espanhola, que talvez evoluísse.

Pode-se dizer então que a Guerra Civil Espanhola foi um campo de testes para armamentos e táticas que seriam usadas na Segunda Guerra Mundial?

Isso o governo nazista reconheceu desde o princípio. O Exército Vermelho também viu a oportunidade, mas, devido à ortodoxia militar stalinista depois da execução do marechal Tukhatchevski, não pôde aproveitá-la muito. A Legião Condor da Luftwaffe, pelo contrário, foi meticulosa em seus relatórios sobre os efeitos dos novos sistemas de armas.

O que gerou a política de não-intervenção de inspiração britânica?

Para os republicanos, uma grande paixão e ofensa moral. Parecia impensável que um governo legitimamente eleito de um país não pudesse comprar armas para se defender. Também há poucas dúvidas sobre a hipocrisia de manter uma política que manifestamente não funcionava, enquanto o comitê em Londres, que incluía as três principais potências intervencionistas – Alemanha, Itália e União Soviética -, fingia o contrário. É compreensível que a raiva maior tenha sido reservada ao governo britânico, que, mesmo não tendo proposto oficialmente o plano de não intervenção, era com toda certeza a principal força por trás dele. Dois primeiros-ministros, Chamberlain e Baldwin, e dois secretários do Exterior, Eden e Halifax, costumam ser acusados de participar de uma trama conservadora para dar apoio a Franco. Embora extremamente plausível, considerando suas amizades e preferências pessoais, ao que tudo indica essa é uma distorção da verdade.

O que uma vitória republicana produziria? Um governo liberal de esquerda ou regime comunista linha-dura?

Havia a determinação comunista de eliminar aliados de esquerda assim que a guerra fosse vencida contra a direita. A luta contra os anarquistas – que fizeram um governo relativamente bom na Catalunha – seria inevitável. O Pravda declarou que “a limpeza de elementos trotskistas e anarcossindicalistas será realizada com a mesma energia que na União Soviética”. A estratégia da Frente Popular era apenas para “o momento”. Os stalinistas, pela própria natureza de sua ideologia, não se dispunham a dividir o poder com mais ninguém a longo prazo. É presumível que um governo democrático recebesse ajuda do Plano Marshall depois da Segunda Guerra. Então uma economia razoavelmente livre, quase com certeza, recuperaria o país a partir dos anos 50, já que o período pós-guerra seria desesperador fosse qual fosse o resultado da Guerra Civil. Com um governo esquerdista autoritário, talvez abertamente comunista, a Espanha seria um Estado semelhante às repúblicas ditas populares do centro da Europa ou dos Bálcãs até depois de 1989.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 3 de 4

image E aqui continuamos a nossa saga através da Guerra Civil Espanhola. Esta é a penúltima parte e falaremos, entre outras coisas de Guernica. Como não custa lembrar TODAS as respostas foram tiradas do livro que dá título a este post.

No que diferia a propaganda republicana da nacionalista?

Muitas vezes muito pouco. Ambos os lados aproveitavam incidentes isolados para defender ideias gerais.

O que dizia a propaganda republicana?

Os republicanos espalhavam histórias de horror sobre regulares mouros que cortavam a mão de crianças que fechavam o punho, para o caso de estarem fazendo a saudação esquerdista. Também contavam milagres seculares, como as bombas nacionalistas que não explodiam porque continham mensagens de solidariedade de operários estrangeiros em vez de explosivos. Houve, sem dúvida, casos de operários de fábricas de munição que praticaram sabotagem, mas o exagero da propaganda republicana desenvolveu tamanho apego à vã esperança que cabou se tornando uma grande desvantagem. Depois que o governo despertava um louco otimismo em relação à determinada ofensiva, ficava praticamente impossível admitir o fracasso, e isso levou à perda de grande quantidade de homens e material bélico na defesa de ganhos inúteis.

O que dizia a propaganda nacionalista?

As suas primeiras notícias traziam “massacres vermelhos” a ponto da imprensa católica estrangeira acorrer em apoio ao levante nacionalista no seu começo. A acusação mais sensacional foi o estupro de freiras, sendo que uma invenção semelhante datava da Idade Média, quando foi usada para justificar uma chacina de judeus. Os nacionalistas pisavam em terreno mais firme ao condenarem o assassinato de padres e tiveram o apoio do Papa, que declarou que os padres eram mártires. A maré só começou a virar a favor da República em novembro de 1936, com o bombardeio dos bairros operários e do Hospital San Carlos durante a batalha de Madri. Cinco meses depois, a destruição de Guernica deu à República sua maior vitória na guerra propagandística, principalmente porque os bascos eram conservadores e católicos.

Afinal, Guernica foi bombardeada?

A pergunta parece uma loucura, mas é que tem muita gente que não acredita na destruição de Guernica.

É claro que ela foi bombardeada. E foi sim bombardeada pela Legião Condor alemã. Quem diz que não houve o bombardeio talvez não tenha tido acesso ao diário de guerra de um dos comandantes da Legião Condor, Wolfram Von Richtofen, que contradiz por completo a versão nacionalista de que o ataque teria sido feito pelos republicanos:

“K/88 [forças de bombardeio da Legião Condor] foi apontada para Guernica, com a intenção de desorganizar e fazer cessar a retirada dos vermelhos, que precisam passar por aqui.”

A que horas deu-se o início do bombardeio de Guernica?

Às 4 e meia da tarde, uma segunda-feira, 26 de abril. Um único bombardeiro Heinkel 111 da “esquadrilha experimental” da Legião Condor chegou sobre a cidade, despejou sua carga no centro e logo desapareceu.

E o que aconteceu em seguida?

A maior parte da população saiu dos abrigos e foi ajudar os feridos. Mas não contavam com a volta da esquadrilha, 15 minutos depois, lançando bombas de vários tamanhos. Os que correram de volta aos abrigos foram sufocados pela fumaça e pela poeira e ficaram alarmados porque já estava evidente que os abrigos não resistiriam às bombas mais pesadas. As pessoas correram para os campos ao redor da cidade e as esquadrilhas de caças Heinkel 51 chegaram metralhando e lançando granadas sobre os homens sobre as mulheres e as crianças. A parte principal do ataque sequer começara. Às 17:15, ouviu-se o som dos motores áereos. Os soldados identificaram-nos imediatamente: eram os Junkers 52. Três esquadrilhas, vindas de Burgos, cobriram a cidade de bombas sistemáticas em ataques revezados de vinte minutos durante duas horas e meia.

De que eram constituídas as cargas dos aviões?

De bombas pequenas e médias, além de outras de 250 quilos, bombas antipessoais de 20 libras (nove quilos) e bombas incendiárias. As incendiárias eram jogadas dos Junkers em tubos de alumínio de um quilo, como se fossem confete metálico.

Qual foi o número de baixas?

Segundo o governo basco, as baixas corresponderam a cerca de um terço da população da cidade – 1654 mortos e 889 feridos, embora pesquisas mais recentes indiquem que não foram mortas mais de trezentas pessoas. E aqui, é claro, também entrou em ação a máquina bem azeitada de propaganda da esquerda. Enquanto os números de mortos em Guernica “aumentavam”, os da Prisão Modelo de Paracuelos de Jarama, controlada pelos republicanos, foram “esquecidos”. Alguns deles simples eram simpatizantes dos nacionalistas, mas foram fuzilados. Seu número exato: 970 mortos. A ordem dada era executá-los e ocultar a responsabilidade dos republicanos. Houve um pequeno grupo que foi liberado para demonstrar às embaixadas estrangeiras o “humanitarismo” da República.

Parte 1

Parte 2

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 2 de 4

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E continuamos com a história da guerra civil espanhola. Todas as respostas foram tiradas do livro que ilustra o post. Esta é a segunda parte. Ainda faltam duas.

Quais as diferenças entre o falangismo, o nazismo e o fascismo?

O falangismo diferia do nazismo e do fascismo em sua natureza profundamente conservadora. Mussolini usava símbolos romanos e imagens imperiais em seus discursos apenas pelo efeito propagandístico. A Falange, pelo contrário, usava fraseologia moderna e revolucionária mas permanecia fundamentalmente reacionária. A Igreja era a essência da Hispanidad. O novo Estado “se inspiraria no espírito da religião católica que é tradição na Espanha.” Os seus símbolos eram os de Fernão e Isabel: o jugo do Estado autoritário e as flechas da aniquilação para acabar com a heresia. Não só pegaram emprestados os símbolos como tentaram reviver a mentalidade castelhana. O falangista ideal era imaginado como “meio monge, meio soldado”. A exemplo do que já foi dito na série “Fascismo de esquerda” em relação ao nazismo e ao fascismo, os falangistas também possuíam aspectos socialistas. Alguns falangistas atacavam a “falência social do capitalismo” e denunciavam as condições de vida dos operários e camponeses, mas consideravam o marxismo repugnante como ideologia por não ser espanhol e porque a luta de classes enfraquecia a nação. O país tinha que estar fortemente unido num sistema no qual o empregador não pudesse explorar o empregado.

Houve por parte do Comintern alguma preocupação em ocultar a revolução que estaria em marcha na Espanha?

Sim. Por incrível que pareça, os defensores mais loquazes da propriedade não eram os republicanos liberais, mas o Partido Comunista e seu ramo catalão, o PSUC. Ambos seguiam a linha do Comintern de ocultar a revolução. La Pasionária (cujo bordão “No pasarán” é um plágio de uma fala de Petain) e outros membros do seu comitê central negaram enfaticamente que algum tipo de revolução estivesse acontecendo na Espanha e defenderam com todo vigor empresários e pequenos proprietários. Isso numa época em que camponeses ricos ou cúlaques morriam nos Gulags. O Comintern, sem admitir de modo algum uma contradição tão flagrante, registrou as palavras de ordem comunistas recomendadas para a região rural nos arredores de Valência: “Respeitamos os que querem trabalhar em sua terra como um coletivo, mas também pedimos respeito por aqueles que querem cultivar a sua terra individualmente” e “Oprimir os interesses dos pequenos fazendeiros é oprimir os pais de nossos soldados”. Essa postura anrirrevolucionária receitada por Moscou levou em grande número elementos da classe média para as fileiras comunistas.

Por que Mussolini torcia pela criação de um estado fascista no Mediterrâneo?

Não é  que ele só torcesse por isso. A verdade é que ele mal podia esperar por isso, sobretudo um estado que estaria em dívida com ele. Sua grande ambição era rivalizar com o poderio naval britânico e desafiar os franceses no norte da África. O aliado espanhol poderia controlar os estreitos tomando Gibraltar e permitir a possibilidade de bases nas Ilhas Baleares, mas sua frota provavelmente não rivalizaria com a dele. A conquista da Abissínia por Mussolini aumentara muito suas ilusões sobre o poderio italiano.

Por que Hitler ajudou Franco?

Por razões estratégicas. Uma Espanha fascista seria uma ameaça à retaguarda da França, assim como à rota britânica para o Canal de Suez. Havia até a possibilidade tentadora de bases de submarinos no litoral atlântico (De vez em quando os portos espanhóis de Vigo, El Ferrol, Cádiz e Las Palmas foram usados durante a Segunda Guerra Mundial.) A guerra civil serviu também para desviar a atenção de sua estratégia centro-europeia, ao mesmo tempo em que constituía uma oportunidade de treinar os homens e experimentar táticas e equipamento.

O papel das Brigadas Internacionais foi superdimensionado?

Sim. A história das Brigadas foi distorcida de várias formas não só devido à  propaganda que exagerou seu papel de forma desproporcional em relação às formações espanholas; surgiu a impressão, principalmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, de que eram compostas de intelectuais de classe média e “Beau Gestes” ideológicos mortos em ação. Na verdade, quase 80% dos voluntários da Grã-Bretanha eram trabalhadores braçais que largaram o emprego ou estavam desempregados. Alguns ficaram contentes de fugir da apatia do desemprego; outros já vinham combatendo fascistas em lutas de rua. Mas a maioria tinha pouca noção do que realmente significava a guerra.

Os nacionalistas se aproveitaram do medo do comunismo?

Sim. Eles afirmavam representar a causa do cristianismo, da ordem e da civilização ocidental contra o “comunismo asiático”. Para reforçar essa versão dos fatos, alegavam, com base em documentos forjados, que os comunistas tinham planejado uma revolução com 150 mil soldados em tropas de choque e 100 mil na reserva em 1936, golpe que o levante nacionalista impedira. Declararam que o resultado das eleições de 1936 não era válido, embora a Ceda e os líderes monarquistas tivessem-no aceitado na época. Concentraram-se em apresentar a vida na zona republicana como um massacre perpétuo de padres, freiras e inocentes, acompanhado da destruição frenética de igrejas e obras de arte. E, para justificar por que não tinham conseguido tomar Madri, afirmaram que meio milhão de comunistas estrangeiros lutavam na Espanha.

Qual era a defesa dos republicanos?

Na verdade, era supersimplificada. Os republicanos alegavam que tinham sido eleitos legalmente em 1936 e depois foram atacados por generais reacionários auxiliados pelas ditaduras do Eixo. Assim, a República representava a causa da democracia, da liberdade e do esclarecimento contra o fascismo. A propaganda estrangeira da República enfatizava que ela era o único governo legal e democrático da Espanha. É claro que isso era verdade, comparado à ilegalidade e do autoritarismo de seus adversários, mas houve ocasiões em que nem os políticos liberais e de centro-esquerda respeitaram sua própria constituição. O levante de outubro de 1934 muito prejudicou a sua causa contra os rebeldes.

Quando os nacionalistas sentiram que estavam perdendo a guerra da propaganda?

Na verdade, vários fatores contribuíram para isso. Primeiro, havia uma diferença fundamental na atitude dos comandos militares adversários no trato com a imprensa. Os nacionalistas costumavam ver jornalistas como espiões potenciais e devam-lhes pouca liberdade de movimento, principalmente caso pudessem testemunhar um episódio de limpeza.

Os terminais telegráficos internacionais estavam em território republicano, e assim os joranlistas daquela zona tinham suas reportagens publicadas primeiro. As notícias da zona nacionalista costumavam chegar desatualizadas.

Os jornalistas também eram afetados pelas emoções da época. Muitos se tornaram defensores fiéis e muitas vezes acríticos da República depois do terrível cerco de Madri. Sua dedicação afetou a cobertura de questões posteriores, como as manobras do Partido Comunista para assumir o controle. Os ideais da causa antifascista anestesiaram muitos deles para aspectos da guerra que se mostraram constrangedores.

Havia também vários tipos de censura e pressão que afetavam as reportagens publicadas em outros países. Iam dos comunicados com tendência propagandística dos encarregados das relações públicas do governo e da censura republicana até os preconceitos políticos ou comerciais do editor.

A primeira parte está aqui.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

10 RESOLUÇÕES QUE, INFELIZMENTE, NÃO FORAM TOMADAS NA CONFECOM

OBS: Alguns dos itens são baseados em propostas que REALMENTE foram aprovadas nessa conferência com nome de exame de fezes.
1. Todo brasileiro tem o direito de assistir “Dexter”!!!
2. Os canais de TV Playboy, Venus, Private e Playboy não podem ser vendidos à la carte – assim, esses estafermos que ficam “pensando” a mídia parariam de foder a nossa paciência e passariam a tocar punheta, deixando a gente em paz.
3. Proibição de cotas para filmes nacionais em nome do bom gosto.
4. Criação de um observatório para deixar esse pessoal de observatórios de mídia bem longe de qualquer meio de comunicação.
5. Evitar qualquer fundo público que torre dinheiro com TVs públicas geridas por Franklin Martins e Tereza Cruvinel novamente em nome do bom gosto.
6. Evitar que qualquer engraçadinho que se considere um “justiceiro social” se meta a regular a internet.
7. Matar na raiz qualquer tentativa de impor cotas raciais em programas e comerciais de televisão, porque daqui a pouco quem vai escalar elenco de novela é o pessoal da Educafro…
8. Não criar nenhum instituto público, com a nossa grana, que seja aparelhado por movimentos “sociais”, ONGs e partidos de esquerda que decidam por mim o que eu posso ou não assistir.
9. Não proibir comerciais para menores de 12 anos porque se meu filho me pedir um brinquedo eu sei dizer não.
10. Não realizar mais conferências que tenham como resultado propostas que Hitler, Mussolini, Stálin e Fidel Castro aplaudiriam de pé.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

FASCISMO DE ESQUERDA – PARTE FINAL

image Esta é a última parte do “bate-papo'” sobre o livro “Fascismo de esquerda”, de Jonah Goldberg. Claro que esta série é uma pálida ideia do traz a obra de Goldberg, que é uma bordoada no progressista supostamente virtuoso que veio “para nos salvar” sem que muitos não tenham pedido para serem salvos. Sei que boa parte dos leitores gostou do que foi publicado, porque tiveram informações sobre fatos históricos que sempre são colocados de lado por uma questão de conveniência. Outros estão bufando, porque descobriram que suas bandeiras, tão caras, tão estimadas e tão boazinhas tiveram origem no nazifascismo. E vão continuar de antolhos, correndo atrás da cenourinha ideológica para tentar continuarem de bem com a sua consciência.

Mas tudo que vem da esquerda é ruim? Claro que não! Mas o fato de você se considerar um esquerdista não o coloca automaticamente no lado mais virtuoso do debate. E ser de direita ou conservador não é nenhum crime, como qualquer pessoa com mais de dois neurônios já sabe. Isto ficou claro.

Comprem o livro. Lá tem muito mais.

1. De onde vem a ideia de que os “valores de família” são fascistas?

Ela possui uma longa genealogia, remontando, mais uma vez à Escola de Frankfurt. Max Horkheimer argumentava que a raiz do totalitarismo nazista era a família. Mas a verdade não poderia estar mais distante disso. Embora a retórica nazista frequentemente mostrasse deferência à família, a prática concreta do nazismo era compatível com o esforço progressista de invadir a família, romper suas paredes, destruir sua autonomia. A família tradicional é a inimiga de todos os totalitarismos políticos porque é um bastião de lealdades separado do Estado e anterior a ele, razão pela qual os progressistas estão constantemente a quebrar sua casca.

2. Havia, por parte do nazismo, hostilidade contra o Cristianismo?

Basta ler Table talk, livro de Hitler. Mais claro que isso é impossível, sobretudo no quis respeito à sexualidade. O Cristianismo, junto com o Judaísmo, rejeitava a visão pagã de sexo como gratificação, atribuindo-lhe significado moral. Ao ler o livro é quase impossível não ver Hitler como um livre-pensador de mente aberta. Ele diz: “O casamento, tal como praticado na sociedade burguesa, é, em geral, uma coisa contra a natureza”. E continua: “A religião está em perpétuo conflito com o espírito de livre indagação”. E mais: “Para nós, a catástrofe é estarmos amarrados a uma religião que se rebela contra todos os prazeres dos sentidos.” Hitler tinha profundo desprezo pelos preconceitos sociais que condenam os nascimentos fora do casamento: “Eu amo ver essa exibição de saúde à minha volta.”

3. E a posíção dos nazistas em relação ao homossexualismo?

Essas atitudes ainda são fonte de confusão. É verdade que muitos homossexuais foram enviados à campos de concentração, mas também é fato que o Partido Nazista e as organizações pangermânicas ao seu redor estavam cheias de homossexuais. O chefe das SA, Ernst Rohm era homossexual assumido. Quando integrantes ciumentos das SA tentaram usar esse fato contra ele em 1931, Hitler disse: “A homossexualidade de Rohm é puramente privada”.

4. O que há de fascismo no ambientalismo?

Com certeza, não são suas etéreas e obscuras suposições metafísicas a respeito do infortúnio existencial do homem. Em vez disso, seu ingrediente fascista mais tangível é o fato de ser um inestimável “mecanismo de crise”. Al Gore constantemente insiste em que o aquecimento global é a crise definidora de nossos tempos. Céticos são chamados de traidores, negadores do Holocausto, instrumentos de interesses escusos. Alternativamente, ambientalistas progressistas apresentam-se no papel de samaritanos protetores. Gore afirma que não tempo para debates, para nenhum tipo de discussão. Em termos práticos, isso significa que precisamos nos render ao Estado-babá global e criar o tipo de “ditadura econômica” pela qual anseiam os progressistas.

5. Nesta questão de ambientalismo, os nazistas saíram na frente de novo?

Sim. Eles foram os primeiros a usar a luta contra a poluição do ar, a criação de reservas naturais e a necessidade de reflorestamento como pontos centrais de sua plataforma.

6. Afinal, o que defende um conservador?

Basicamente é alguém que defende e protege o que são consideradas intituições liberais, mas não no sentido americano, e sim europeu, mas que são consideradas conservadoras nos Estados Unidos. Propriedade privada, mercados livres, liberdade de consciência e os direitos das comunidades de determinar por elas mesmas como viverão no espaço delimitado por essas diretrizes.

7. É correto dizer que os conservadores se opõem ao progresso como diz a esquerda?

Claro que não. Os conservadores americanos não se opõem à mudança nem ao progresso. Nenhum conservador que restaurar a escravidão ou acabar com o papel-moeda. Mas o que o conservador acredita é que o progresso resulta da resolução das inconsistências dentro de nossa tradição, e não de jogá-la fora.

8. Qual é a maior ameaça dentro disso tudo?

A mais grave é que estamos perdendo a noção de onde a política começa e onde ela termina. Numa sociedade na qual se se supõe que o governo deva fazer tudo de “bom” e tenha sentido “pragmático”, numa sociedade na qual se recusar a validar a autoestima de outra pessoa é quase um crime de ódio, numa sociedade na qual o que é pessoal é político, existe o perigo constante de que um culto ou outro seja imbuído de poder político.

Primeira parte.

Segunda parte.

Terceira parte.

Quarta parte.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

FASCISMO DE ESQUERDA – PARTE 4

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A quarta parte deste “bate-papo” fala de cinema, aborto, ainda um pouco de eugenia, educação e a guerra cultural.

1. Em 2005, William Bennett, um pró-vida convcto, invocou o argumento de Steven Levitt (“O aborto legalizado levou à diminuição de crimes”) para denunciar o pensamento eugênico e foi execrado pelos liberais. Por que isso aconteceu? 

O capítulo em que Levitt trata do aborto em Freakonomics é uma atualização de um artigo que ele escreveu em 1999. Textual: “O aborto legalizado levou à diminuição de filhos indesejados; filhos não desejados cometem mais crimes; o aborto legalizado, portanto, levou a menos crimes”. O problema é que Freakonomics removeu todas as referências à raça e nunca correlacionou os fatos de que, como os fetos abortados são desproporcionalmente negros, e os negros contribuem desproporcionalmente para a taxa de crimes, a redução do tamanho da população negra reduz crimes. A imprensa na época não pareceu se importar, só quando Bennett, um pró-vida, usou o mesmo argumento para denunciar a eugenia.

2. O que Bennett disse?

Ele disse: “Sei que é verdade que, se quiser reduzir os crimes, você poderia – se fosse seu único propósito – abortar todos os bebês negros neste país, e sua taxa de crimes cairia. Isso seria uma coisa impossível, ridícula e moralmente repreensível de se fazer, mas a taxa de crimes cairia.” O que parece haver ofendido os liberais, acima de tudo, foi que Bennett havia acidentalmente tomado emprestada uma lógica convencional de esquerda para afirmar um ponto de vista conservador e, tal como acontecia com os darwinistas sociais de antigamente, isso deixa os liberais bastante aborrecidos. Vários porta-vozes negros disseram que Bennett queira exterminar negros e que era profundamente racista. Ora, trata-se de uma reviravolta espantosa. Afinal, quando os liberais defendem abortos, usualmente dizem que não matam “bebês”, apenas removem um aglomerado de células. Se abortos HIPOTÉTICOS cometidos para fins conservadores são infanticídios, como é possível que abortos reais realizados para fins liberais não o sejam?

3. E o que dizer de Peter Singer?

Singer é considerado o mais importante filósofo vivo e o principal eticista do mundo. Ele leciona em Princeton e argumenta que crianças indesejadas ou inválidas devem ser mortas em nome da “compaixão”. Ele também defende que idosos e outros estorvos sociais devem ser eliminados quando suas vidas não valem a pena ser vividas. Singer é uma das principais vozes da esquerda e mostra que, apesar do Holocausto ter desacreditado a eugenia per se, seus defensores ainda estão vivos e bem influentes.

4. Afinal, os grandes negócios são coisa de direita?

Se são, precisam ser avisados disso. Por que financiam atividades liberais e esquerdistas e se vangloriam disso em comerciais e campanhas de publicidade? Como explicar que não exista praticamente nenhuma questão importante nas guerras culturais – seja o aborto, o casamento de gays ou as ações afirmativas – nas quais os grandes negócios tenham desempenhado um papel relevante do lado da direita americana, enquanto existem dezenas de corporações que apóiam o lado liberal?

5. Uma das razões para escrever este livro?

Furar a bolha da presunçosa autoconfiança de que simplesmente por ser de esquerda alguém é automaticamente virtuoso.

6. Mas os problemas da esquerda no passado não são apenas problemas do passado?

Os problemas da esquerda de hoje se encontram na esquerda de hoje, não há dúvida. A relevância de se falar no passado está em que, diferentemente do conservador que tem lutado com sua história para se certificar de que não vai repeti-la, a esquerda não vê necessidade de fazer nada parecido.

7. O que pode explicar o amor de esquerdistas por homens como Che, Arafat, Castro, Mao?

Isto está ligado claramente à obsessão da esquerda pelos valores fascistas de autenticidade e vontade. É uma inclinação natural por “homens de ação”. A esquerda tem uma queda inerente por homens que “transcendem” a moralidade e a democracia burguesa em nome da justiça social.

8. E quanto à educação progressista?

Ela tem dois pais. A Prússia e John Dewey, guru de Hillary Clinton. O jardim de infância foi transplantado da Prússia para os Estados Unidos no século XIX porque os reformadores americanos estavam totalmente encantados pela ordem e pela doutrinação patriótica que crianças pequenas recebiam fora de casa. Além disso, achavam que era a melhor forma para extirpar traços não americanos dos imigrantes. Para outros progressistas, capturar crianças nas escolas era parte de um esforço maior para quebrar a espinha dorsal da família nuclear, a instituição mais resistente à doutrinação política.

9. Que cuidados devemos ter em relação aos nossos filhos?

Tenham cuidado dos engenheiros sociais. Eles querem “criar” um novo tipo de ser humano. Essas novas crianças precisarão aprender a amar a todos como se fossem parte da família, afinal, múltiplos vínculos se tornarão o ideal. Timidez e vínculo materno exclusivo parecerão disfuncionais. Querem desenvolver novos tratamentos para crianças com vínculos maternos excessivos. Por tratamento entenda-se propaganda, que já fazem parte de alguns livros adotados em escolas progressistas como “Mamãe, vá embora!”. A boa criança será aquela mais ligada “a “comunidade” e menos ligadas a seus pais.

10. Os liberais se preocupam basicamente com o quê?

Com a cultura. Ou melhor, com a imposição de cultura. Durante a década de 1990, por exemplo, o liberalismo mergulhou de cabeça no negócio de formação de cultura, desde a política de significado de Hillary Clinton até critérios de desempenho adaptados às características de gênero nos esportes universitários, a presença de gays nas Forças Armadas e a guerra ao cigarro. Em 2007, para se ter uma ideia, uma creche progressista em Seattle proibiu o uso do Lego porque, com aquele brinquedo, “as crianças estavam construindo suas suposições a respeito da propriedade e do poder social que ela propicia, suposições que espelhavam as de uma sociedade capitalista baseada em classes – e que nós, professores, acreditamos ser uma sociedade injusta e opressiva”. Em lugar disso, criaram uma brincadeira que refletia os padrões moralmente superiores de “coletividade”.

11. Qual a lógica fundamental dos julgamentos da Suprema Corte em relação ao aborto?

Por incrível que pareça esta lógica não está baseada no “direito de escolha”, mas sobretudo na ideia de que religião e moralidade religiosamente informada não têm nenhum lugar nas questões públicas. Este é um dos aspectos da guerra cultural. Ela chegou à Suprema Corte.

12. A guerra cultural busca cercear a religião?

Exatamente. Em 1995, a Corte de Apelação do Nono Circuito decidiu que o “direito de morrer” não poderia ser constrangido simplesmente “para satisfazer aos preceitos morais ou religiosos de uma parte da população.” Não importa que as raízes de leis contra assasinato, perjúrio e roubos brotem diretamente daqueles preceitos religiosos.

13. De onde vem esse conceito de guerra cultural?

O termo vem do alemão Kulturkampf. A esquerda usa este termo para se referir aos supostos esforços da direita para demonizá-la e impor seus valores ao resto do país. Os matizes germânicos servem para evocar um parelelo com Hitler. Mas a Kulturkampf original não foi uma ação repressiva da direita contra dissidentes liberais ou minorias em perigo, mas um ataque da esquerda contra as forças do tradicionalismo e do conservadorismo. Ostensivamente, a Kulturkampf foi uma guerra contra os católicos alemães, absorvidos, pela primeira vez, na Grande Alemanha. Bismarck temia que eles pudessem não ser suficientemente leais a uma Alemanha liderada pela Prússia e, mais pragmaticamente ainda queria evitar a formação de um partido católico alemão.

14. E nos Estados Unidos?

De maneira semelhante, a Kulturkampf americana da década de 1960 começou não com os hippies, a Guerra do Vietnã ou mesmo os direitos civis. De forma adequada a uma tentativa de abrir o caminho para uma nova religião política, ela começa com o esforço de abolir as preces das escolas.

15. Vamos falar um pouco de cinema.

Hollywood é a mais poderosa agência de propaganda de facto na história humana. É possível defender todos os filmes que citarei aqui, no sentido que representam progressos no desdobramento da civilização ocidental de liberdade – e também são um bom divertimento. Mas o fato é que o fascismo garante sucesso de bilheteria, e os conservadores, com poucas exceções, são impotentes para combatê-los, porque nem ao menos sabem o que estão vendo. Os liberais, por sua vez, são rápidos em rotular de fascista qualquer “glorificação” da guerra ou de batalhas, mas estão celebrando o tempo todo o niilismo e o relativismo em nome da liberdade e da rebelião inviduais.

16. “Beleza americana”.

Kevin Spacey é Lester Burnham, um profissional burguês, casado com uma profissional burguesa e com uma filha convenientemente alienada. A vida de Lester dá uma guinada quando ele fica obcecado sexualmente por uma amiga de sua filha. Ele joga tudo pro alto, começa uma campanha de autoaperfeiçoamento que envolve uma obsessão narcísica com o corpo, dando um piparote em todas as convenções sociais e cedendo à todos os desejos num desafio à razão. Esse tipo de coisa, onde a pessoa “real” é encontrada não na cabeça, mas entre as pernas, parece passar por alta sabedoria em Hollywood.

17. “Forrest Gump”.

Um homem branco retardado é a única força moral confiável durante o caos das décadas de 1960 e 1970. O que redime o homem branco, aqui, é a sua anormalidade.

18. “Melhor é impossivel”.

Jack Nicholson é um tipo preconceituoso e virulento até que começa a tomar potentes drogas psicotrópicas, que de fato o curam de seu “branquismo” (Adorno poderia chamá-las de pílulas antifascismo) e o tornam tolerantes com gays e negros e capaz de amar.

19. “Sociedade dos poetas mortos”.

Hitler teria aplaudido de pé. O filme começa com estudantes aprendendo poesia de acordo com uma fórmula, traçando sua “perfeição”. É quase possível ouvir Hitler denunciando essa maneira “judia” de medir a arte. Então chega o sr. Keating e diz para os estudantes arrancarem estas páginas do livro. Keating os encoraja a violentar a convenção e exorta-os a subir na mesa do professor, numa exibição simultânea de superioridade e desprezo pelos papéis tradicionais. Um dos alunos, Todd, está com medo das novas abordagens de Keating que, então, de maneira intimidante, convoca-o a soltar o seu “brado bárbaro”. Keating encoraja seus pupilos a “aproveitarem o dia”, num glorioso culto da ação. Seguindo seus ensinamentos, os estudantes verdadeiramente “livres” criam uma sociedade secreta na qual adotam nomes pagãos e que se reúne numa velha caverna para tirar a “essência da vida”, criar novos deuses e ler poesias românticas. Neil, outro estudante, é despertado pelo sr. Keating e se rebela contra a pressão do pai burguês que quer que ele se torne médico. Ele quer viver uma vida de paixão como ator e quando o pai o proíbe, ele se mata para não se curvar – um final semelhante a Der König, peça favorita de Hitler, que a assistiu 17 vezes em três anos. Neil é representado como um Cristo, a despeito de seu egoísmo. A morte de Neil sacode a escola. Arriscam-se a ser expulsos se procurarem o sr. Keating, mas não resistem ao seu carisma. Desafiam o novo professor. Esses belos super-homens, unidos em suas vontades, buscam seu “capitão”, afastando-se da autoridade tradicional. Só faltaram mesmo as saudações nazistas.

20. “Matrix”.

É uma alegoria totalmente fascista com alguns traços marxistas. Keanu Reeves representa um burguês aprisionado numa vida de cubículo. Seu codinome Neo não apenas representa seu verdadeiro nome no partido (é como se fosse), mas também resume seu status como um Novo Homem, um Übermensch que pode dobrar o mundo à sua vontade e, em algum momento, pode até voar. A falsidade de seu estilo de vida lhe é revelada quando desperta de um sonho e compreende que o que pensava ser a sua vida real era uma prisão, uma jaula onde forças parasitas e manipuladoras literalmente viviam à sua custa. Em vez de judeus sanguessugas, o inimigo é o que os seguidores da Nova Era nos séculos XIX e XX chamavam de a Engrenagem ou das System. Depois disso, ele se junta a uma sociedade secreta pagã, onde os únicos vestígios autênticos da Humanidade vivem numa glória dionisíaca no ventre morno da Mãe Terra, totalmente dedicados à salvação dos poucos que vale a pena salvar dentre seus irmãos entorpecidos. Homens brancos desbotados, vestidos em ternos escuros, rejeitam a autenticidade da vida humana em nome de uma lógica fria e de prioridades mecânicas. São literalmente desenraizados, não meramente inclinados a abstrações, mas abstrações reais. Parece haver poucos deles, mas estão em toda a parte; podem tomar forma humana e operar qualquer coisa. Em suma, são versões em quadrinhos de tudo o que os nazistas diziam a respeito dos judeus.

É importante reconhecer que estamos falando não tanto da cultura de esquerda ou da cultura liberal, mas da cultura americana. Em muitos aspectos, o vício de Hollywood com a estética fascista não é ideológico. Gladiador usou imagens fascistas porque aquela era a melhor forma de contar a história. Só porque estou apontando temas fascistas nesses filmes, não quer dizer que sejam ruins. Não há como negar também que os conservadores estão dispostos a acolher filmes fascistas se eles vêm da direita. Muitos conservadores gostaram de Coração valente, porque exibia a resistência à tirania e celebravam a “liberdade”. Mas a “liberdade” desses filmes não era tanto a liberdade per se, mas a liberdade da tribo de se comportar de acordo com seus próprios valores relativistas. Os clãs das terras altas da Escócia dificilmente eram repúblicas constitucionais. Outro exemplo semelhante está no filme 300. Os espartanos eram uma casta eugênica e vagamente homoerótica de guerreiros que teria levado Hitler a apaludir de pé, a despeito dos esforços de Hollywood para americanizá-los.

Com isso concluímos a 4ª parte. Em breve a quinta e última parte.

Primeira parte.

Segunda parte.

Terceira parte.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

FASCISMO DE ESQUERDA - PARTE 3

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A terceira parte deste “bate-papo” com respostas tiradas do livro “Fascismo de esquerda”, de Jonah Goldberg. Aqui falamos um pouco de eugenia, Ku Klux Klan entre outros assuntos que a esquerda, ansiosamente, tenta esconder.

1. A direita americana é contantemente instada a assumir os capítulos mais negros da história do país: os acordos segregacionistas, os excessos mccarthistas, o isolacionismo na Segunda Guerra e assim por diante. Isso é correto?

Raramente se menciona o lado da esquerda nessas histórias. O Partido Democrata abrigou leis e práticas segregacionistas, conhecidas nos Estados Unidos como Jim Crow durante um século. A Ku Klux Klan tem raiz democrata. O liberalismo americano era tão isolacionista quanto o conservadorismo. A histeria progressista contra os comunistas, com o Red Scare, fazia o mccarthismo parecer debate de universidade. Os sucessivos presidentes democratas ordenaram a detenção de sino-americanos, a disseminação da vigilância doméstica de inimigos políticos e o uso de bombas atômicas contra o Japão. Os comunistas leais a Moscou deduravam trotskistas heréticos. Falta perguntar por que o progressismo - e não o conservadorismo - era tão favoravelmente inclinado à eugenia.

2. Por falar  em eugenia, muitos intelectuais famosos eram a favor dela.

Sim. Bernard Shaw, H. G. Wells, John Maynard Keynes, Aldous Huxley. Todos eram a favor da eugenia. Os progressistas, e aqui falamos dos Estados Unidos, viviam obcecados pela "saúde racial" da nação, supostamente ameaçada por ondas crescentes de imigração e pela superpopulação de americanos nativos. Muitos dos projetos progressitas de destaque, desde a Lei Seca até o movimento pelo controle de natalidade, baseavam-se nessa busca de soluções para domesticar a besta demográfica. O conservador católico Chesterton foi submetido a um implacável desprezo por sua oposição à eugenia. [Observação: político sul-americano importante, Salvador Allende, tão endeusado pelas esquerdas, era eugenista.]

3. Isso quer dizer que é impossível não ver o progressismo como um empreendimento fascista - pelo menos de acordo com os padrões que usamos hoje?

Os historiadores liberais reconhecem consensualmente que o progressismo resiste a uma definição fácil. Mas a explicação talvez seja simples: identificar o progressismo de forma adequada seria muito inconveniente para a esquerda, pois isso exporia seu projeto eugênico.

4. Como a esquerda contesta sua proximidade com a eugenia?

Seus representantes dizem que os progressistas da época apenas eram homens de seu tempo. Mas essa é uma explicação que não resiste a uma análise mais profunda.

5. Por quê?

Em primeiro lugar, os eugenistas progressistas tinham adversários que não eram progressistas e eram antieugênicos: conservadores prematuros, libertários radicais e católicos ortodoxos - gente que os progressistas chamavam de retrógrados e reacionários.

Em segundo lugar, argumentar que progressistas eram produtos de seu tempo simplesmente reforça meu argumento de que o progressismo foi gerado num momento fascista e nunca quis encarar sua herança.

Enquanto a esquerda continua cega às ameaças fascistas que vêm de suas próprias fileiras, continuam atacando os dogmas religiosos e os políticos conservadores. Quem rejeita a clonagem? Quem se sente mais incomodado com a eutanásia, o aborto e o ato de brincar de Deus em laboratório? Uma nação conservadora de verdade, coisa que já não somos, nem ficaria se perguntando se destruir um blastócito ou um feto de oito meses é um assassinato. Quanto mais bebês defeituosos.

6. Ainda falando em eugenia, qual a principal linha divisória entre os progressistas em relação ao assunto?

Esta linha não era entre eugenistas e não eugenistas ou entre racistas e não racistas. Era entre defensores da "eugenia positiva" e da "eugenia negativa", entre aqueles que se chamavam humanistas e aqueles que subscreviam as teorias de suicídio da raça, entre ambientalistas e deterministas genéticos.

7. O que defendiam os "eugenistas do bem"?

Defendiam a ideia de que bastaria encorajar, bajular e subsidiar os mais aptos para que se reproduzissem mais e os não aptos para que se reproduzissem menos.

8. O que defendiam os "eugenistas do mal"?

Operavam ao longo do espectro que ia desde a esterlilização forçada até o aprisionamento, pelo menos durante os anos reprodutivos.

9. E quanto aos ambientalistas?

Eles enfatizavam que a melhoria das condições materiais das classes degeneradas melhoraria seu infortúnio. Já os teorias do suicídio da raça acreditavam que linhagem e classes inteiras de pessoas estavam além da possibilidade de salvação.

10. E quanto aos oponentes da eugenia?

Eram os conservadores. Os progressistas os chamavam de "darwinistas sociais". Foi o termo que usaram para descrever qualquer um que se opusesse à noção de que o Estado deve "interferir" agressivamente na ordem reprodutiva da sociedade. Na lógica artificial da esquerda, aqueles que se opunham à esterilização forçada dos "inaptos" e dos pobres eram os vilões, pois deixavam um "estado de natureza" reinar entre as classes inferiores. A instituição que mais se destacou no combate à eugenia foi a Igreja Católica. Foi a sua influência na Itália que tornou o fascismo menos obcecado pela eugenia que os progressistas americanos e os nazistas.

11. E a Klu Klux Klan?

O rótulo de fascista dado á KKK faz bastante sentido. Já o de direitista, não. A Klan da Era Progressista, surgida na segunda década do século XX, não era a mesma Klan que surgira em 1865, depois da Guerra Civil. Era uma coleção frouxa de organizações independentes que se espalhavam pelos Estados Unidos. O que as unia, além do nome e dos trajes absurdos, era que todas se inspiravam no filme “O nascimento de uma Nação”. Eram, na realidade, uma “subcultura repulsiva” de fãs do filme.

12. E a KKK da década de 1920?

Esta era vista como reformista e moderna, e tinha uma relação íntima com alguns elementos progressistas do Partido Democrata. O jovem Harry Truman, bem como Hugo Black, futuro juiz da Suprema Corte, estavam entre os seus integrantes. E a KKK era menos racista do que a academia.

13. Em que se sustenta hoje o liberalismo [a esquerda] nos Estados Unidos?

Ela se sustenta em três pilares: apoio ao Estado de bem-estar social, aborto e política de identidade. Obviamente, esta é uma formulação grosseira. O aborto, por exemplo, poderia ser integrado à política de identidade, já que o feminismo é um dos credos que exaltam a “jaula de ferro” (no sentido weberiano) da identidade.

14. O maior recurso da esquerda em discussões sobre racismo, sexismo e o papel do governo de modo geral é a suposição implícita  de que as intenções da esquerda são melhores e mais elevadas do que as do conservadorismo.

Tudo pose. O clichê diz: “Os liberais pensam com o coração, e os conservadores pensam com a cabeça.” Mas se levarmos em conta a história do liberalismo, é claro que essa vantagem é injusta, uma base intectual roubada. Os liberais podem estar certos ou errados a respeito de determinada política, mas a suposição de que estão automaticamente defendendo a posição mais virtuosa é pura besteira.

15. Como era o projeto do Estado de bem-estar social americano?

Era um projeto racial e eugênico desde a sua concepção. Os autores progressistas do socialismo do bem-estar social estavam interessados não em proteger os fracos das devastações do capitalismo, como afirmam os liberais modernos, mas em extinguir, como ervas daninhas, os fracos e inaptos, para assim preservar e fortalecer o caráter anglo-saxão da comunidade racial americana.

16. Existe alguma relação entre os progressistas americanos e os nazistas no que diz respeito à saúde moral e física?

Sim. O bem comum se sobrepõe ao bem privado. Foi essa bandeira que a Alemanha levou a extremos totalitários. A Lei Seca foi a principal ilustração disso na América e os nazistas olhavam com bons olhos este esforço americano. O álcool alimentaria a licenciosidade das raças mestiças inferiores. Na Alemanha, a principal preocupação era que o álcool e os ainda mais desprezados cigarros levassem à degenerescência da pureza ariana alemã. O tabaco recebia o crédito por todos os males imagináveis, inclusive de promover a homossexualidade.

17. Margaret Sanger é considerada uma santa liberal, uma santa de esquerda, uma fundadora do feminismo moderno. Foi a fundadora também do movimento pelo controle da natalidade e da Planned Parenthood, que todo ano concede os Prêmios Maggie a esquerdistas famosos. Estar do lado dela é estar do lado “certo”?

Depende. Margaret Sanger era uma completa racista. Sob a bandeira da “liberdade de concepção”, Sanger apoiou todas as bandeiras eugênicas. Buscou proibir a reprodução de inaptos e regular a reprodução de todas as pessoas. Ela escarnecia da abordagem cautelosa de eugenistas “positivos”, ridicularizando-os como mera “competição pelo berço”. Até hoje seus admiradores tentam minimizar este seu lado. Aliás, ficam ansiosos por isso. Talvez para se acharem do lado “certo”…

18. E conseguem?

Só fazendo um esforço muito grande. Uma pessoal imparcial não pode ler os livros, artigos e panfletos de Sanger sem encontrar semelhanças com a eugenia nazista. Ela publicava textos com o tipo de racismo extremado que associamos a Goebbels ou Himmler. Sua revista, Birth Control Review, apresentava os nazistas sob uma luz positiva. Publicava artigos de Ernst Rüdin, o diretor de esterilização de Hitler e um dos fundadores da Sociedade Nazista para a Higiene Racial.

19. Qual foi a razão do sucesso de Sanger?

Foi promover a campanha pelo controle social associando a campanha racista-eugênica a prazer sexual e liberação feminina. Em seu “Código para parar a superprodução de crianças”, de 1934, ela decretou que “nenhuma mulher terá o direito legal de gerar um filho sem permissão… Nenhuma permissão será válida para mais de um filho.” Ela argumentava que a maternidade era uma restrição socialmente imposta à liberdade das mulheres.

20. O que foi o Projeto Negro de Sanger?

Em 1939, ela contratou ministros negros por meio da Federação de Controle da Natalidade. Contratou também médicos e outros líderes para podar a supostamente excessiva população negra. A intenção racista está acima de qualquer dúvida. Ela afirmava:

A massa de significativo número de negros ainda se reproduz descuidada e desastrosamente, e isso resulta em que o número de negros ocorra naquela porção de população menos inteligente e apta.

Hoje, a intenção de Sanger pode parecer chocante, mas ela reconhecia seu extremo radicalismo. É possivel que Sanger não quisesse “exterminar” os negros. Mesmo assim, muitos negros viram o projeto desse modo e começaram a lançar suspeitas sobre o projeto. Em 1977, uma pessoa que via a relação, por exemplo, entre aborto e raça de uma perspectiva menos confiante, mandou um telegrama ao Congresso para dizer que o aborto era o mesmo que “genocídio contra a raça negra”. E acrescentou em caixa alta: “POR UMA QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA, TENHO QUE ME OPOR AO USO DE FUNDOS FEDERAIS PARA UMA POLÍTICA DE MATAR CRIANCINHAS”. O nome dessa pessoa era Jesse Jackson. Talvez seja desnecessário dizer que ele mudou de posição sem o menor problema quando decidiu disputar a indicação do Partido Democrata.

A primeira parte desta série está aqui.

A segunda, você acha aqui.

E a série ainda não terminou. Aguardem a 4ª parte.

sábado, 28 de novembro de 2009

FASCISMO DE ESQUERDA - PARTE 2

image Gostei dessa coisa de falar de um livro como se fosse um bate-papo. E continuo fazendo tendo como tema o livro "Fascismo de esquerda", de Jonah Goldberg. Aqui está a segunda parte e com certeza haverá uma terceira, falando da agenda fascista da esquerda atual.

1. Um dos temas mais polêmicos do livro de Jonah Goldberg é quando ele afirma que, durante a Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos tornaram-se um país fascista.

Sim, a primeira aparição do moderno totalitarismo não aconteceu nem na Itália e muito menos na Alemanha. Pelo menos temporariamente, foi nos Estados Unidos.  Mais precisamente no governo do democrata Wodroow Wilson. De que forma se poderia descrever um país que criou o primeiro Ministério da Propaganda? Um país onde milhares de prisioneiros políticos foram assediados, espancados, espionados e jogados na prisão simplesmente por expressarem opiniões privadas? Um país onde o presidente acusava imigrantes estrangeiros de injetarem um "veneno" traiçoeiro na corrente sanguínea americana? Um país onde jornais e revistas eram fechados, onde 1000 mil agentes de propaganda do governo se misturaram com o povo para mobilizá-lo para a sua guerra e onde 25% dos capangas recebeu autoridade legal para intimidar e espancar "desertores" e dissidentes?

2. Por que os progressistas americanos ficaram impressionados com os experimentos de Mussolini e Lênin?

Porque se reconheceram em termos filosóficos, organizacionais e políticos. Eram militaristas, fanaticamente nacionalistas, imperialistas, racistas, profundamente envolvidos na promoção da eugenia darwiniana, adoravam o Estado de bem-estar social de Bismarck e eram estatistas além da medida moderna.

3. Neste sentido, a Revolução Francesa poderia ser chamada de fascista?

Claro. Como alguém pode duvidar disso? Ela foi totalitária, terrorista, nacionalista, conspiratória e populista. Produziu os primeiros ditadores modernos: Robespierre e Napoleão. A paranóia do regime jacobino transformou os revolucionários em pessoas mais selvagens e cruéis do que o rei que haviam destituído.

4. Se a Revolução Francesa era fascista então seus principais herdeiros, os esquerdistas, são frutos dessa árvore envenenada?

Exatamente. E isso coloca corretamente o fascismo no lugar que lhe cabe na história da esquerda. Mas isso causaria uma desordem sísmica na visão de mundo esquerdista. Por isso, adotam a dissonância cognitiva e recorrem a um golpe de mão terminológico.

5. O liberalismo americano [a esquerda] se tornou uma religião política totalitária?

Não necessariamente orwelliana, mas que é totalitária, não resta dúvida.  A esquerda não vê hoje nenhuma área da vida humana que não possua significância política, desde o que você fuma, o que você come e o que você diz. Sexo é política. Comida é política. Esportes, divertimento, tudo tem importância política para os fascistas de esquerda. Eles depositam sua fé em especialistas alçados à categoria de sacerdotes que sabem o que é bom pra nós, que planejam, exortam, molestam e censuram. Tentam usar noções científicas para desacreditar noções tradicionais de religiosidade, mas usam a desculpa do pluralismo e da espiritualidade para defender crenças "não tradicionais". Tal como os fascistas clássicos, os fascistas liberais falam de uma Terceira Via, nada de direita ou esquerda, onde só haverá coisas boas e as escolhas difíceis são escolhas falsas.

6. Essa cruzada New Age pela saúde, contra o cigarro e a obsessão pelos direitos dos animais não é uma coisa nova...

De  forma alguma. Ninguém contesta que esses modismos sejam um produto da esquerda cultural e política. Mas poucos querem ver que nada disso é inédito. Himmler era ativista de carteirinha dos direitos dos animais e um promotor agressivo da "cura natural". Rudolph Hess, adjunto de Hitler, divulgava homeopatia e ervas medicinais. Hitler queria transformar toda a nação alemã em vegetariana para rebater a dieta pouco saudável do capitalismo. Dachau possuía o maior laboratório do mundo de pesquisa na área de medicina alternativa. Um manual hitlerista proclamava que a nutrição não era um assunto privado. Não soa atual, a partir do momento em que isso ecoa no establishment da saúde pública atual?

7. Qual a definição, então, de fascismo de Goldberg?

Fascismo é uma religião de Estado. Ele presume a unidade orgânica do corpo político e almeja um líder nacional afinado com a vontade popular. Assume responsabilidade por todos os aspectos da vida, como saúde e bem-estar e busca a uniformidade de pensamento e ação: seja pela força, por meio de regulações e pressão social. Qualquer dissenso é problema e, portanto, inimgo.

8. Mussolini e Lênin se encontraram alguma vez?

Isso é discutido até hoje. Mas o fato é que se admiravam mutuamente a ponto de Lênin achar que Mussolini era o único revolucionário de verdade na Itália.

9. Hilter e Mussolini?

Discordavam em vários pontos acirrada e abertamente. Mussolini ameaçou um confronto militar com Hitler para salvar a Áustria fascista de uma invasão nazista em 1934. Mussolini ridicularizava o racismo nazista e duvidava que os alemães pudessem formar um raça pura. Ele dizia que tinha até certa comiseração para as doutrinas nazistas, porque os alemães descendiam de um povo que não sabia ler nem escrever e que nunca registrara a própria vida numa época em que Roma tinha César, Virgílio e Augusto.

10. Quem apoiou os nazistas?

A ideia de que as classes dominantes e a burguesia fossem os vilões dessa história é pura tendência ideológica, mas em grande medida, já foi descartada. O nazismo e o fascismo eram dois movimentos populares e contavam com o apoio de vários extratos da sociedade. Os nazistas subiram ao poder explorando uma retórica anticapitalista na qual acreditavam. Se a esquerda é a mudança e a direita é a manutenção do status quo, então Hitler era de esquerda, um revolucionário. Sua plataforma pregava reforma agrária, abolição da renda por juros, nacionalização das indústrias, expansão dos serviços de saúde, abolição do trabalho infantil, pensão para idosos, garantia de emprego e educação universal.

11. Houve um período de repressão progressista às liberdades civis no governo Wilson?

Os liberais tendem a reclamar da Era McCarthy. Dizem que foi o período mais obscuro da história americana depois da escravidão. É verdade: sob o mccarthismo, alguns escritores de Hollywood que apoiaram Stálin e mentiram sobre isso perderam seus empregos na década de 1950. Mas nada se compara ao que o governo Wilson e seus progressistam impuseram à América. Sob a Lei de Espionagem e a Lei de Sedição, qualquer crítica ao governo, mesmo em sua própria casa poderia lhe render uma sentença de prisão. A delação foi incentivada. Os integrantes da Liga Protetora da América ficou encarregada de ficar de olho em seus vizinhos, colegas de trabalho e amigos. Chegavam a ler suas corresponências. A Patrulha Vigilante Americana espancava os que se recusavam a se alistar no Exército. Eram fascistas praticamente oficiais.

12. Havia alguma semelhança entre Hitler e Franklin Roosevelt?

A bajulação do Homem Esquecido. Havia também apelos populistas ao ressentimento contra os "tubarões", "banqueiros internacionais", "realistas econômicos". Hitler e Mussolini eram mais demagogos que FDR, mas este percebeu a magia de tais apelos. FDR se preocupava com o homem comum. Mas Hitler também. Existem inúmeros trabalhos mostrando que o "New Deal de Hitler" não era apenas semelhante ao de FDR, mas foi mais generoso e bem sucedido.

13. Mas as instituições americanas, que já eram sólidas, travaram projetos de Roosevelt?

Não. FDR gravava secretamente suas conversas, usava o serviço postal para punir seus inimigos, mentiu repetidas vezes para levar o país à guerra - lembra alguém? - e em diversas vezes solapou os poderes do Congresso de fazer guerra. Em 1932, quando foi alertado que muitas disposições do New Deal eram inconstitucionais, deu de ombros. Ele encheria a Suprema Corte com seus cupinchas. Em 1942, disse para quem quisesse ouvir que se o Congresso não fizesse o que ele queria, ele o faria de qualquer modo. Ele questionava o patriotismo de qualquer um que se opusesse à guerra. E criou o complexo industrial-militar que tantos de esquerda atualmente denigrem como fascista.

14. A agitação e a rebeldia dos anos 60 eram um acontecimento inédito?

Nem de longe. A cultura da juventude alemã dos anos 1920 (!!!) e no início da seguinte estava cheia de rebelião, misticismo ambiental, idealismo, uma não pequena dose de paganismo e viam a vida familiar como repressiva e falsa. E eram igualmente intolerantes como os jovens dos anos 60. Professores que não aceitavam sua rebeldia eram perseguidos, vaiados, denunciados. Administradores que tentavam bloquear ou punir suas travessuras eram alvos de protestos maciços e eles achavam que estavam lutando contra o conservadorismo. Queriam governar as universidades o que, para um acadêmico tradicionalista, significava entregar a direção do hospício nas mãos dos loucos.

15. A esquerda continua dizendo que o bacilo do fascismo corre nas veias da direita.

Bom, as principais correntes do pensamento conservador, salvo raras exceções, derivam de campeões do Iluminismo: John Locke, Adam Smith, Montesquieu, Burke. Nenhuma delas com o vínculo intelectual direto com o nazismo ou com Nietzsche ou com o niilismo, o existencialismo e muito menos com o pragmatismo. Enquanto isso, as fileiras dos intelectuais de esquerda estão coalhadas de pensadores derivados diretamente da tradição fascista. E tudo o que se requer é a palavra mágica "marxista" para absolver a maior parte deles. Foucault celebrou a Revolução Islâmica do Irã e a ditadura dos mulás. Marcuse era um protégé de Heidegger e tornou-se o líder do brain trust da Nova Esquerda. Carl Schmitt, um grotesco filósofo nazista, está entre os mais chiques intelectuais da esquerda atual.

16. Pode-se dizer que muitas coisas que se pensam sobre JFK estão erradas?

É claro. A começar pela ideia de que se ele não tivesse morrido, os americanos sairiam do Vietnã. Kennedy era um anticomunista ferrenho e um falcão da Guerra Fria. Fez campanha falando de um fictício "hiato de mísseis" alegando uma suposta inferioridade americana em relação aos mísseis soviéticos. Com isso, conseguiu passar para a direita de Nixon no que diz respeito à política externa. Tentou derrubar Fidel Castro, levou o mundo à beira de uma guerra nuclear. Foi alçado a um dos líderes pelos direitos civis, mas afirmou que "não perdia o sono com o problema dos negros". Kennedy era um obcecado por crises. Nos seus primeiros oito meses, foram dezesseis. Isso demonstra os perigos da paixão fascista na política democrática. A tensão com os soviéticos ele mesmo se empenhou em criar.

17. McCarthy sempre foi demonizado pela esquerda por causa de suas investigações contra comunistas?

Depende. O problema é que comunistas e liberais - aqui no sentido de esquerdistas - sempre fizeram concessões às táticas de McCarthy quando quem estava sendo frito eram seus inimigos. Os próprios comunistas usaram isso para prender trotskistas americanos durante a guerra. O Comitê de Atividades Antiamericanas foi fundado por um progressista, Samuel Dickinson, para investigar a atividade de simpatizantes da Alemanha. Poucos se lembrar que McCarthy tinha origem em bases progressistas.

18. E a Escola de Frankfurt?

Simplificando: foi ela quem sistematizou a ideia de que quem era anticomunista só podia ser louco. Adorno, Horkheimer, Erich Fromm e Marcuse tentaram explicar por que o fascismo era mais popular que o comunismo. Tomando emprestado de Freud e Jung, a Escola de Frankfurt descrevia o naszismo e o fascismo de psicose de massas. Isto era plausível, mas sua análise sustentava que, como o marxismo era objetivamente superior àquelas alternativas, as massas, a burguesia e qualquer um que discordasse dos marxistas tinha de estar, literalmente, louco.

19. Adorno dizia que as pessoas conservadoras precisavam de terapia?

Em seu livro "A personalidade autoritária", Adorno dá conceito F, de fascismo, às pessoas com visão conservadora e precisavam de terapia. A explicação original dos marxistas era que o fascismo se tratava da reação da classe dominante capitalista diante da ascensão das classes trabalhadoras. O que é falso. A Escola de Franfurt habilmente psicologizou isso. Homens que não saberiam lidar com o "progresso" respondem violentamente porque possuem personalidades autoritárias. Assim, quem discorde dos liberais, do escopo e do seu método está padecendo de um deficiência mental, comumente conhecida como fascismo.

20. A esquerda nem sempre renega o populismo.

É verdade. Quando o populismo vem da esquerda, como no caso de Chávez, ela o ama. Mas quando os desejos populistas do povo se contrapõem à agenda da esquerda, subitamente palavras carregadas como "reação", "extremismo" e, é claro, "fascismo" são disparadas a torto e a direito. [À guisa de explicação foi exatamente o que aconteceu depois da derrota da esquerda no referendo sobre o desarmamento. De uma hora pra outra, o povo tinha "desaprendido" a votar. Só reapredeu ao reeleger Lula, claro.]