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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O PRÊMIO NOBEL E SUAS JUSTIFICATIVAS

Toda vez que algum escritor é laureado com o Prêmio Nobel de Literatura dou uma olhada na justificativa da Academia Sueca para a escolha do vencedor. O de 2010, como sabemos, foi Mario Vargas Llosa. Eis o motivo para o prêmio ter sido conferido ao peruano:

"por sua cartografia das estruturas de poder e de imagens, e sua mordaz resistência, revolta e derrota do indivíduo"

Isso poderia ser a justificativa para uns 30 vencedores e me cheira a blá-blá-blá. Empolação de acadêmico.

Mas nem sempre foi assim. Houve uma justificativa simples quando o prêmio foi outorgado a Knut Hamsun:

"por seu trabalho monumental, Os Frutos da Terra."

Simples e direto.

Agora, vamos a um exemplo negativo. Quando o Nobel foi parar nas mãos de Elfriede Jalinek (o que causou um reboliço dentro da comissão), eis o que disse a Academia:

Elfriede jelinek 2004 small.jpg

"pelo seu fluxo musical de vozes e contra-vozes em novelas e peças que com extraordinário zelo linguístico revelam o absurdo dos clichés/clichês da sociedade e o seu poder subjugante"

Hã? Pra quem já leu Dona Jalinek (não é o meu caso) esse papo de “vozes e contra-vozes” é bobagem. Ela gosta mesmo é de putaria. Por que o sueco que anuncia o prêmio não mandou logo:

“O Prêmio Nobel de Literatura vai pra Elfriede Jalinek porque… porque eu tô comendo…”?

Vamos a outros exemplos:

Doris Lessing:

Doris lessing 20060312 (square).jpg

“… porque ela tá velhinha, tem muita gente aqui na Academia que gosta dela e não queremos que ela morra sem levar o prêmio.”

Wisława Szymborska:

Szymborska(closeup).jpg

“só pra sacanear os jornalistas que jamais conseguirão pronuciar o seu nome, um verdadeiro trava-língua.”

Wole Soyinka:

Soyinka, Wole (1934).jpg

“porque o negão é do conceito e aderimos à política de cotas.”

Acho que seriam explicações mais diretas, verdadeiras…

quinta-feira, 15 de abril de 2010

PERGUNTAR NÃO OFENDE 2

Um país onde se discute se stand up é teatro ou não é pode ter cadeira no Conselho de Segurança da ONU?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A BATALHA PELA ESPANHA, de Antony Beevor – Parte 2 de 4

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E continuamos com a história da guerra civil espanhola. Todas as respostas foram tiradas do livro que ilustra o post. Esta é a segunda parte. Ainda faltam duas.

Quais as diferenças entre o falangismo, o nazismo e o fascismo?

O falangismo diferia do nazismo e do fascismo em sua natureza profundamente conservadora. Mussolini usava símbolos romanos e imagens imperiais em seus discursos apenas pelo efeito propagandístico. A Falange, pelo contrário, usava fraseologia moderna e revolucionária mas permanecia fundamentalmente reacionária. A Igreja era a essência da Hispanidad. O novo Estado “se inspiraria no espírito da religião católica que é tradição na Espanha.” Os seus símbolos eram os de Fernão e Isabel: o jugo do Estado autoritário e as flechas da aniquilação para acabar com a heresia. Não só pegaram emprestados os símbolos como tentaram reviver a mentalidade castelhana. O falangista ideal era imaginado como “meio monge, meio soldado”. A exemplo do que já foi dito na série “Fascismo de esquerda” em relação ao nazismo e ao fascismo, os falangistas também possuíam aspectos socialistas. Alguns falangistas atacavam a “falência social do capitalismo” e denunciavam as condições de vida dos operários e camponeses, mas consideravam o marxismo repugnante como ideologia por não ser espanhol e porque a luta de classes enfraquecia a nação. O país tinha que estar fortemente unido num sistema no qual o empregador não pudesse explorar o empregado.

Houve por parte do Comintern alguma preocupação em ocultar a revolução que estaria em marcha na Espanha?

Sim. Por incrível que pareça, os defensores mais loquazes da propriedade não eram os republicanos liberais, mas o Partido Comunista e seu ramo catalão, o PSUC. Ambos seguiam a linha do Comintern de ocultar a revolução. La Pasionária (cujo bordão “No pasarán” é um plágio de uma fala de Petain) e outros membros do seu comitê central negaram enfaticamente que algum tipo de revolução estivesse acontecendo na Espanha e defenderam com todo vigor empresários e pequenos proprietários. Isso numa época em que camponeses ricos ou cúlaques morriam nos Gulags. O Comintern, sem admitir de modo algum uma contradição tão flagrante, registrou as palavras de ordem comunistas recomendadas para a região rural nos arredores de Valência: “Respeitamos os que querem trabalhar em sua terra como um coletivo, mas também pedimos respeito por aqueles que querem cultivar a sua terra individualmente” e “Oprimir os interesses dos pequenos fazendeiros é oprimir os pais de nossos soldados”. Essa postura anrirrevolucionária receitada por Moscou levou em grande número elementos da classe média para as fileiras comunistas.

Por que Mussolini torcia pela criação de um estado fascista no Mediterrâneo?

Não é  que ele só torcesse por isso. A verdade é que ele mal podia esperar por isso, sobretudo um estado que estaria em dívida com ele. Sua grande ambição era rivalizar com o poderio naval britânico e desafiar os franceses no norte da África. O aliado espanhol poderia controlar os estreitos tomando Gibraltar e permitir a possibilidade de bases nas Ilhas Baleares, mas sua frota provavelmente não rivalizaria com a dele. A conquista da Abissínia por Mussolini aumentara muito suas ilusões sobre o poderio italiano.

Por que Hitler ajudou Franco?

Por razões estratégicas. Uma Espanha fascista seria uma ameaça à retaguarda da França, assim como à rota britânica para o Canal de Suez. Havia até a possibilidade tentadora de bases de submarinos no litoral atlântico (De vez em quando os portos espanhóis de Vigo, El Ferrol, Cádiz e Las Palmas foram usados durante a Segunda Guerra Mundial.) A guerra civil serviu também para desviar a atenção de sua estratégia centro-europeia, ao mesmo tempo em que constituía uma oportunidade de treinar os homens e experimentar táticas e equipamento.

O papel das Brigadas Internacionais foi superdimensionado?

Sim. A história das Brigadas foi distorcida de várias formas não só devido à  propaganda que exagerou seu papel de forma desproporcional em relação às formações espanholas; surgiu a impressão, principalmente na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, de que eram compostas de intelectuais de classe média e “Beau Gestes” ideológicos mortos em ação. Na verdade, quase 80% dos voluntários da Grã-Bretanha eram trabalhadores braçais que largaram o emprego ou estavam desempregados. Alguns ficaram contentes de fugir da apatia do desemprego; outros já vinham combatendo fascistas em lutas de rua. Mas a maioria tinha pouca noção do que realmente significava a guerra.

Os nacionalistas se aproveitaram do medo do comunismo?

Sim. Eles afirmavam representar a causa do cristianismo, da ordem e da civilização ocidental contra o “comunismo asiático”. Para reforçar essa versão dos fatos, alegavam, com base em documentos forjados, que os comunistas tinham planejado uma revolução com 150 mil soldados em tropas de choque e 100 mil na reserva em 1936, golpe que o levante nacionalista impedira. Declararam que o resultado das eleições de 1936 não era válido, embora a Ceda e os líderes monarquistas tivessem-no aceitado na época. Concentraram-se em apresentar a vida na zona republicana como um massacre perpétuo de padres, freiras e inocentes, acompanhado da destruição frenética de igrejas e obras de arte. E, para justificar por que não tinham conseguido tomar Madri, afirmaram que meio milhão de comunistas estrangeiros lutavam na Espanha.

Qual era a defesa dos republicanos?

Na verdade, era supersimplificada. Os republicanos alegavam que tinham sido eleitos legalmente em 1936 e depois foram atacados por generais reacionários auxiliados pelas ditaduras do Eixo. Assim, a República representava a causa da democracia, da liberdade e do esclarecimento contra o fascismo. A propaganda estrangeira da República enfatizava que ela era o único governo legal e democrático da Espanha. É claro que isso era verdade, comparado à ilegalidade e do autoritarismo de seus adversários, mas houve ocasiões em que nem os políticos liberais e de centro-esquerda respeitaram sua própria constituição. O levante de outubro de 1934 muito prejudicou a sua causa contra os rebeldes.

Quando os nacionalistas sentiram que estavam perdendo a guerra da propaganda?

Na verdade, vários fatores contribuíram para isso. Primeiro, havia uma diferença fundamental na atitude dos comandos militares adversários no trato com a imprensa. Os nacionalistas costumavam ver jornalistas como espiões potenciais e devam-lhes pouca liberdade de movimento, principalmente caso pudessem testemunhar um episódio de limpeza.

Os terminais telegráficos internacionais estavam em território republicano, e assim os joranlistas daquela zona tinham suas reportagens publicadas primeiro. As notícias da zona nacionalista costumavam chegar desatualizadas.

Os jornalistas também eram afetados pelas emoções da época. Muitos se tornaram defensores fiéis e muitas vezes acríticos da República depois do terrível cerco de Madri. Sua dedicação afetou a cobertura de questões posteriores, como as manobras do Partido Comunista para assumir o controle. Os ideais da causa antifascista anestesiaram muitos deles para aspectos da guerra que se mostraram constrangedores.

Havia também vários tipos de censura e pressão que afetavam as reportagens publicadas em outros países. Iam dos comunicados com tendência propagandística dos encarregados das relações públicas do governo e da censura republicana até os preconceitos políticos ou comerciais do editor.

A primeira parte está aqui.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

JOÃO UBALDO, A CONFERÊNCIA COM NOME DE EXAME DE FEZES, A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, O COMPLEXO DE INFERIORIDADE TUPINIQUIM E OUTRAS PÉROLAS

Agora mesmo acaba de se encerrar uma tal Conferência Nacional de Comunicação, onde, segundo me contam, houve um festival de asnices e intenções duvidosas digno da ala de extrema esquerda de um grêmio infanto-juvenil norte-coreano. Tentaram de novo criar um Conselho Federal de Jornalismo, para dar palpite na imprensa e, provavelmente, involuir para o ponto em que eu receberia uma lista de assuntos que deveria abordar neste espaço, bem como a opinião a ser adotada.

Também propuseram a volta da exigência de diploma em comunicação para o exercício da profissão de jornalista. Isso não é pela liberdade de imprensa, porque qualquer cidadão deve ter o direito de publicar um jornal em que defenda legitimamente suas opiniões, sem precisar recorrer a um diplomado, que, em certos casos, só fará emprestar, ou vender, sua assinatura. Enfim, quanto mais as coisas mudam, mais permanecem as mesmas. Com uma exceção: sem imprensa livre, elas piorariam bastante.

Texto completo aqui.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

10 RESOLUÇÕES QUE, INFELIZMENTE, NÃO FORAM TOMADAS NA CONFECOM

OBS: Alguns dos itens são baseados em propostas que REALMENTE foram aprovadas nessa conferência com nome de exame de fezes.
1. Todo brasileiro tem o direito de assistir “Dexter”!!!
2. Os canais de TV Playboy, Venus, Private e Playboy não podem ser vendidos à la carte – assim, esses estafermos que ficam “pensando” a mídia parariam de foder a nossa paciência e passariam a tocar punheta, deixando a gente em paz.
3. Proibição de cotas para filmes nacionais em nome do bom gosto.
4. Criação de um observatório para deixar esse pessoal de observatórios de mídia bem longe de qualquer meio de comunicação.
5. Evitar qualquer fundo público que torre dinheiro com TVs públicas geridas por Franklin Martins e Tereza Cruvinel novamente em nome do bom gosto.
6. Evitar que qualquer engraçadinho que se considere um “justiceiro social” se meta a regular a internet.
7. Matar na raiz qualquer tentativa de impor cotas raciais em programas e comerciais de televisão, porque daqui a pouco quem vai escalar elenco de novela é o pessoal da Educafro…
8. Não criar nenhum instituto público, com a nossa grana, que seja aparelhado por movimentos “sociais”, ONGs e partidos de esquerda que decidam por mim o que eu posso ou não assistir.
9. Não proibir comerciais para menores de 12 anos porque se meu filho me pedir um brinquedo eu sei dizer não.
10. Não realizar mais conferências que tenham como resultado propostas que Hitler, Mussolini, Stálin e Fidel Castro aplaudiriam de pé.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

FASCISMO DE ESQUERDA – PARTE 4

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A quarta parte deste “bate-papo” fala de cinema, aborto, ainda um pouco de eugenia, educação e a guerra cultural.

1. Em 2005, William Bennett, um pró-vida convcto, invocou o argumento de Steven Levitt (“O aborto legalizado levou à diminuição de crimes”) para denunciar o pensamento eugênico e foi execrado pelos liberais. Por que isso aconteceu? 

O capítulo em que Levitt trata do aborto em Freakonomics é uma atualização de um artigo que ele escreveu em 1999. Textual: “O aborto legalizado levou à diminuição de filhos indesejados; filhos não desejados cometem mais crimes; o aborto legalizado, portanto, levou a menos crimes”. O problema é que Freakonomics removeu todas as referências à raça e nunca correlacionou os fatos de que, como os fetos abortados são desproporcionalmente negros, e os negros contribuem desproporcionalmente para a taxa de crimes, a redução do tamanho da população negra reduz crimes. A imprensa na época não pareceu se importar, só quando Bennett, um pró-vida, usou o mesmo argumento para denunciar a eugenia.

2. O que Bennett disse?

Ele disse: “Sei que é verdade que, se quiser reduzir os crimes, você poderia – se fosse seu único propósito – abortar todos os bebês negros neste país, e sua taxa de crimes cairia. Isso seria uma coisa impossível, ridícula e moralmente repreensível de se fazer, mas a taxa de crimes cairia.” O que parece haver ofendido os liberais, acima de tudo, foi que Bennett havia acidentalmente tomado emprestada uma lógica convencional de esquerda para afirmar um ponto de vista conservador e, tal como acontecia com os darwinistas sociais de antigamente, isso deixa os liberais bastante aborrecidos. Vários porta-vozes negros disseram que Bennett queira exterminar negros e que era profundamente racista. Ora, trata-se de uma reviravolta espantosa. Afinal, quando os liberais defendem abortos, usualmente dizem que não matam “bebês”, apenas removem um aglomerado de células. Se abortos HIPOTÉTICOS cometidos para fins conservadores são infanticídios, como é possível que abortos reais realizados para fins liberais não o sejam?

3. E o que dizer de Peter Singer?

Singer é considerado o mais importante filósofo vivo e o principal eticista do mundo. Ele leciona em Princeton e argumenta que crianças indesejadas ou inválidas devem ser mortas em nome da “compaixão”. Ele também defende que idosos e outros estorvos sociais devem ser eliminados quando suas vidas não valem a pena ser vividas. Singer é uma das principais vozes da esquerda e mostra que, apesar do Holocausto ter desacreditado a eugenia per se, seus defensores ainda estão vivos e bem influentes.

4. Afinal, os grandes negócios são coisa de direita?

Se são, precisam ser avisados disso. Por que financiam atividades liberais e esquerdistas e se vangloriam disso em comerciais e campanhas de publicidade? Como explicar que não exista praticamente nenhuma questão importante nas guerras culturais – seja o aborto, o casamento de gays ou as ações afirmativas – nas quais os grandes negócios tenham desempenhado um papel relevante do lado da direita americana, enquanto existem dezenas de corporações que apóiam o lado liberal?

5. Uma das razões para escrever este livro?

Furar a bolha da presunçosa autoconfiança de que simplesmente por ser de esquerda alguém é automaticamente virtuoso.

6. Mas os problemas da esquerda no passado não são apenas problemas do passado?

Os problemas da esquerda de hoje se encontram na esquerda de hoje, não há dúvida. A relevância de se falar no passado está em que, diferentemente do conservador que tem lutado com sua história para se certificar de que não vai repeti-la, a esquerda não vê necessidade de fazer nada parecido.

7. O que pode explicar o amor de esquerdistas por homens como Che, Arafat, Castro, Mao?

Isto está ligado claramente à obsessão da esquerda pelos valores fascistas de autenticidade e vontade. É uma inclinação natural por “homens de ação”. A esquerda tem uma queda inerente por homens que “transcendem” a moralidade e a democracia burguesa em nome da justiça social.

8. E quanto à educação progressista?

Ela tem dois pais. A Prússia e John Dewey, guru de Hillary Clinton. O jardim de infância foi transplantado da Prússia para os Estados Unidos no século XIX porque os reformadores americanos estavam totalmente encantados pela ordem e pela doutrinação patriótica que crianças pequenas recebiam fora de casa. Além disso, achavam que era a melhor forma para extirpar traços não americanos dos imigrantes. Para outros progressistas, capturar crianças nas escolas era parte de um esforço maior para quebrar a espinha dorsal da família nuclear, a instituição mais resistente à doutrinação política.

9. Que cuidados devemos ter em relação aos nossos filhos?

Tenham cuidado dos engenheiros sociais. Eles querem “criar” um novo tipo de ser humano. Essas novas crianças precisarão aprender a amar a todos como se fossem parte da família, afinal, múltiplos vínculos se tornarão o ideal. Timidez e vínculo materno exclusivo parecerão disfuncionais. Querem desenvolver novos tratamentos para crianças com vínculos maternos excessivos. Por tratamento entenda-se propaganda, que já fazem parte de alguns livros adotados em escolas progressistas como “Mamãe, vá embora!”. A boa criança será aquela mais ligada “a “comunidade” e menos ligadas a seus pais.

10. Os liberais se preocupam basicamente com o quê?

Com a cultura. Ou melhor, com a imposição de cultura. Durante a década de 1990, por exemplo, o liberalismo mergulhou de cabeça no negócio de formação de cultura, desde a política de significado de Hillary Clinton até critérios de desempenho adaptados às características de gênero nos esportes universitários, a presença de gays nas Forças Armadas e a guerra ao cigarro. Em 2007, para se ter uma ideia, uma creche progressista em Seattle proibiu o uso do Lego porque, com aquele brinquedo, “as crianças estavam construindo suas suposições a respeito da propriedade e do poder social que ela propicia, suposições que espelhavam as de uma sociedade capitalista baseada em classes – e que nós, professores, acreditamos ser uma sociedade injusta e opressiva”. Em lugar disso, criaram uma brincadeira que refletia os padrões moralmente superiores de “coletividade”.

11. Qual a lógica fundamental dos julgamentos da Suprema Corte em relação ao aborto?

Por incrível que pareça esta lógica não está baseada no “direito de escolha”, mas sobretudo na ideia de que religião e moralidade religiosamente informada não têm nenhum lugar nas questões públicas. Este é um dos aspectos da guerra cultural. Ela chegou à Suprema Corte.

12. A guerra cultural busca cercear a religião?

Exatamente. Em 1995, a Corte de Apelação do Nono Circuito decidiu que o “direito de morrer” não poderia ser constrangido simplesmente “para satisfazer aos preceitos morais ou religiosos de uma parte da população.” Não importa que as raízes de leis contra assasinato, perjúrio e roubos brotem diretamente daqueles preceitos religiosos.

13. De onde vem esse conceito de guerra cultural?

O termo vem do alemão Kulturkampf. A esquerda usa este termo para se referir aos supostos esforços da direita para demonizá-la e impor seus valores ao resto do país. Os matizes germânicos servem para evocar um parelelo com Hitler. Mas a Kulturkampf original não foi uma ação repressiva da direita contra dissidentes liberais ou minorias em perigo, mas um ataque da esquerda contra as forças do tradicionalismo e do conservadorismo. Ostensivamente, a Kulturkampf foi uma guerra contra os católicos alemães, absorvidos, pela primeira vez, na Grande Alemanha. Bismarck temia que eles pudessem não ser suficientemente leais a uma Alemanha liderada pela Prússia e, mais pragmaticamente ainda queria evitar a formação de um partido católico alemão.

14. E nos Estados Unidos?

De maneira semelhante, a Kulturkampf americana da década de 1960 começou não com os hippies, a Guerra do Vietnã ou mesmo os direitos civis. De forma adequada a uma tentativa de abrir o caminho para uma nova religião política, ela começa com o esforço de abolir as preces das escolas.

15. Vamos falar um pouco de cinema.

Hollywood é a mais poderosa agência de propaganda de facto na história humana. É possível defender todos os filmes que citarei aqui, no sentido que representam progressos no desdobramento da civilização ocidental de liberdade – e também são um bom divertimento. Mas o fato é que o fascismo garante sucesso de bilheteria, e os conservadores, com poucas exceções, são impotentes para combatê-los, porque nem ao menos sabem o que estão vendo. Os liberais, por sua vez, são rápidos em rotular de fascista qualquer “glorificação” da guerra ou de batalhas, mas estão celebrando o tempo todo o niilismo e o relativismo em nome da liberdade e da rebelião inviduais.

16. “Beleza americana”.

Kevin Spacey é Lester Burnham, um profissional burguês, casado com uma profissional burguesa e com uma filha convenientemente alienada. A vida de Lester dá uma guinada quando ele fica obcecado sexualmente por uma amiga de sua filha. Ele joga tudo pro alto, começa uma campanha de autoaperfeiçoamento que envolve uma obsessão narcísica com o corpo, dando um piparote em todas as convenções sociais e cedendo à todos os desejos num desafio à razão. Esse tipo de coisa, onde a pessoa “real” é encontrada não na cabeça, mas entre as pernas, parece passar por alta sabedoria em Hollywood.

17. “Forrest Gump”.

Um homem branco retardado é a única força moral confiável durante o caos das décadas de 1960 e 1970. O que redime o homem branco, aqui, é a sua anormalidade.

18. “Melhor é impossivel”.

Jack Nicholson é um tipo preconceituoso e virulento até que começa a tomar potentes drogas psicotrópicas, que de fato o curam de seu “branquismo” (Adorno poderia chamá-las de pílulas antifascismo) e o tornam tolerantes com gays e negros e capaz de amar.

19. “Sociedade dos poetas mortos”.

Hitler teria aplaudido de pé. O filme começa com estudantes aprendendo poesia de acordo com uma fórmula, traçando sua “perfeição”. É quase possível ouvir Hitler denunciando essa maneira “judia” de medir a arte. Então chega o sr. Keating e diz para os estudantes arrancarem estas páginas do livro. Keating os encoraja a violentar a convenção e exorta-os a subir na mesa do professor, numa exibição simultânea de superioridade e desprezo pelos papéis tradicionais. Um dos alunos, Todd, está com medo das novas abordagens de Keating que, então, de maneira intimidante, convoca-o a soltar o seu “brado bárbaro”. Keating encoraja seus pupilos a “aproveitarem o dia”, num glorioso culto da ação. Seguindo seus ensinamentos, os estudantes verdadeiramente “livres” criam uma sociedade secreta na qual adotam nomes pagãos e que se reúne numa velha caverna para tirar a “essência da vida”, criar novos deuses e ler poesias românticas. Neil, outro estudante, é despertado pelo sr. Keating e se rebela contra a pressão do pai burguês que quer que ele se torne médico. Ele quer viver uma vida de paixão como ator e quando o pai o proíbe, ele se mata para não se curvar – um final semelhante a Der König, peça favorita de Hitler, que a assistiu 17 vezes em três anos. Neil é representado como um Cristo, a despeito de seu egoísmo. A morte de Neil sacode a escola. Arriscam-se a ser expulsos se procurarem o sr. Keating, mas não resistem ao seu carisma. Desafiam o novo professor. Esses belos super-homens, unidos em suas vontades, buscam seu “capitão”, afastando-se da autoridade tradicional. Só faltaram mesmo as saudações nazistas.

20. “Matrix”.

É uma alegoria totalmente fascista com alguns traços marxistas. Keanu Reeves representa um burguês aprisionado numa vida de cubículo. Seu codinome Neo não apenas representa seu verdadeiro nome no partido (é como se fosse), mas também resume seu status como um Novo Homem, um Übermensch que pode dobrar o mundo à sua vontade e, em algum momento, pode até voar. A falsidade de seu estilo de vida lhe é revelada quando desperta de um sonho e compreende que o que pensava ser a sua vida real era uma prisão, uma jaula onde forças parasitas e manipuladoras literalmente viviam à sua custa. Em vez de judeus sanguessugas, o inimigo é o que os seguidores da Nova Era nos séculos XIX e XX chamavam de a Engrenagem ou das System. Depois disso, ele se junta a uma sociedade secreta pagã, onde os únicos vestígios autênticos da Humanidade vivem numa glória dionisíaca no ventre morno da Mãe Terra, totalmente dedicados à salvação dos poucos que vale a pena salvar dentre seus irmãos entorpecidos. Homens brancos desbotados, vestidos em ternos escuros, rejeitam a autenticidade da vida humana em nome de uma lógica fria e de prioridades mecânicas. São literalmente desenraizados, não meramente inclinados a abstrações, mas abstrações reais. Parece haver poucos deles, mas estão em toda a parte; podem tomar forma humana e operar qualquer coisa. Em suma, são versões em quadrinhos de tudo o que os nazistas diziam a respeito dos judeus.

É importante reconhecer que estamos falando não tanto da cultura de esquerda ou da cultura liberal, mas da cultura americana. Em muitos aspectos, o vício de Hollywood com a estética fascista não é ideológico. Gladiador usou imagens fascistas porque aquela era a melhor forma de contar a história. Só porque estou apontando temas fascistas nesses filmes, não quer dizer que sejam ruins. Não há como negar também que os conservadores estão dispostos a acolher filmes fascistas se eles vêm da direita. Muitos conservadores gostaram de Coração valente, porque exibia a resistência à tirania e celebravam a “liberdade”. Mas a “liberdade” desses filmes não era tanto a liberdade per se, mas a liberdade da tribo de se comportar de acordo com seus próprios valores relativistas. Os clãs das terras altas da Escócia dificilmente eram repúblicas constitucionais. Outro exemplo semelhante está no filme 300. Os espartanos eram uma casta eugênica e vagamente homoerótica de guerreiros que teria levado Hitler a apaludir de pé, a despeito dos esforços de Hollywood para americanizá-los.

Com isso concluímos a 4ª parte. Em breve a quinta e última parte.

Primeira parte.

Segunda parte.

Terceira parte.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

10 FRASES QUE CAETANO PODERIA FALAR SOBRE LULA

Depois de Woody Allen, Lula é a mais nova vítima da metralhadora vocal de Caetano Veloso:
1. Lula é careta!
2. Eu não saio de casa pra ouvir um discurso do Lula.
3. Lula é um presidente menor.
4. Lula é reacionário.
5. O PAC é a melhor comédia de Lula.
6. Lula é muito bajulado.
7. A TV é o veículo perfeito para Lula.
8. Gay, maconha, Bob Dylan... Tudo isso é desprezado por Lula.
9. As piadas de Lula sempre revelam sua visão estreita.
10. O público adorava o Lula quando ele era uma novidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"O PRESIDENTE E A POPOZUDA"

Da coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, no Globo:

 A FUNKEIRA Valeska Popozuda e o presidente Lula se conheceram no ano passado, na inauguração de uma obra do PAC no Complexo do Alemão. Popozuda, que teria causado ciúmes em Dona Marisa, prometeu escrever o “Funk do Lula”. Promessa cumprida. Sente a letra: “Conheci o Lula no Complexo do Alemão/ E ele não tirou o olho do meu popozão/ Com todo respeito, senhor presidente/ O senhor gostou de mim e seu olhar não mente/ Mas, senhor presidente, meu papo é outro/ Que Dilma, que nada, me leve pra Casa Civil/ Vou pôr o som na caixa balançar o quadril/ O funk não é problema, para alguns jovens é a solução/ Quem sabe algum dia viro ministra da Educação.”

Funkeira ministra da Educação? Olha, se tivesse alguma reforma ministerial, eu não duvidaria...

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Valeska: feia de cara, mas boa de ministério...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

UMA OPINIÃO

"Cultura negra? Cultura negra para mim é o Aleijadinho, é Gonçalves Dias, é Machado de Assis, é Capistrano de Abreu, é Cruz e Sousa, é Lima Barreto. Quer Vossa Senhoria me explicar como esses negros e mulatos puderam subir tão alto, numa sociedade escravocrata, enquanto seus netos e bisnetos, desfrutando das liberdades republicanas, paparicados pela 'intelligentsia' universitária, não conseguem hoje produzir senão samba, funk e macumba e ainda se gabam de suas desprezíveis criações como se fossem elevadíssima cultura?"

Wilson Martins - "História da inteligência brasileira"