segunda-feira, 7 de junho de 2010

FARC NO BRASIL? OH, QUANTA SUPRESA!

Só para quem não lê Olavo de Carvalho – ou acha que ele é um paranoico – essa história das ramificações das Farc no Brasil é uma coisa espantosa. Dá vontade de levantar um cartaz daqueles que os torcedores levam para os estádios de futebol:

EU JÁ SABIA!

E tudo isso com a cumplicidade asquerosa de Lula, o companheiro do Foro de São Paulo, do qual o PT e as FARC fazem parte.

Via Selva Brasilis.

HERESIAS MEDIEVAIS, de Nachman Falbel – PARTE 4

image… E damos prosseguimento à peregrinação sobre as heresias medievais. Mais uma vez, fala-se dos cátaros e sobre o que eles pensavam de Deus, uma ideia que muito se aproxima da gnose.
Na Igreja Cátara, qual a diferença entre os Perfeitos e os Crentes?
Os Perfeitos eram isolados das grandes massas dos Crentes por uma elaborada cerimônia de iniciação, ou batismo espiritual, o consolamentum. Havia entre os Perfeitos uma hierarquia de bispos e diáconos, mas estes últimos não tinham o direito exclusivo de administrar os sacramentos.
Afora o consolamentum e a ordenação, os cátaros tinham dois outros sacramentos: a penitência e a quebra do pão. Esta era uma espécie de comunhão, pois não acreditavam na transubstanciação. Os Perfeitos dedicavam-se à contemplação e esperava-se que mantivessem o mais elevado nível moral, cabendo aos Crentes fornecer-lhes alimentos.
Os Crentes não podiam aspirar ao alto nível dos Perfeitos. Por não obedecerem inteiramente à proibição das relações sexuais, por exemplo, eles provocavam aberrações nos relacionamentos, o que constituía motivo para os católicos acusarem-nos de todos os tipos de vícios. Mas é possível que as acusações tenham sido exageradas.
Como os cátaros viam os livros sagrados?
Os cátaros não acreditavam que toda a Bíblia era sagrada. Viam o Velho Testamento com muita reserva e o Novo Testamento foi reinterpretado. A doutrina da reencarnação de Deus era impossível aos cátaros, para os quais Jesus foi um anjo que veio indicar o caminho da salvação, mas não fornecê-lo em pessoa; logo, seus sofrimentos e morte eram uma ilusão.
Qual a doutrina cátara da criação do homem?
Segundo os cátaros, Satã, depois de criar o mundo, decidiu povoá-la e constituir uma milícia para combater o deus-bem. Penetrou no Céu, seduziu alguns anjos e para prendê-los à Terra deu-lhes um corpo. Depois disso, induziu-os ao pecado carnal, ligando-os à condição humana. Do mesmo modo que na doutrina cristã, o homem estaria condenado desde o nascimento, mas, segundo o catarismo, o pecado original era determinado pelo céu.
O que o deus-bem fez para salvar o homem?
Compadecido de seus anjos encadeados na terra, o deus-bem enviou um anjo voluntário como emissário, que se tornou o Filho de Deus. O corpo mortal de Cristo foi apenas uma aparência, visto que uma emanação do Bem não pode ter contato com a matéria, obra impura do deus-mal. Em sua paixão, o Filho de Deus tirou este invólucro carnal e assistiu, invisível, ao seu sacrifício.
Então segundo os cátaros, Jeová, o Deus dos judeus, era o deus-mal?
Sim. Foi Jeová, por intermédio dos judeus, se propôs em vão a supliciar e matar Cristo, enviado do deus-bem. Aos anjos decaídos Cristo levara os meios e o conhecimento para libertarem-se, graças ao Evangelho.
Quais as consequências dessa teoria?
Em primeiro lugar, como já foi dito acima, a negação do Velho Testamento. O encargo de Cristo foi uma simples missão num mundo satânico, sendo negadas a encarnação, paíxão e a ressurreição. O homem não foi criado à imagem de Deus, mas pelo demônio. Daí o ódio dos cátaros pela cruz e pelo sinal da cruz que se relacionam aos sofrimentos de Cristo e o ligam à matéria impura.
Os cátaros acreditavam em inferno?
Nem em inferno nem em purgatório, pois o impuro não poderia se aproximar do deus-bem e penetrar no reino supraterrestre. A purificação da alma deveria ser feita na Terra. Esta teoria, que salvava definitivamente todas as almas, abolia o inferno e a danação eterna era, de fato, consoladora.
PARTE 1
PARTE 2
PARTE 3

POR QUE DEVEMOS TER UM PÉ ATRÁS COM OS SOCIÓLOGOS

Trecho do livro “Roberto Carlos em detalhes”:

Marialice Foracchi, socióloga da Universidade de São Paulo, afirmou que Roberto Carlos se transformara em consumo e, por conseguinte, havia se desgastado. "Ele acabou se perdendo porque, generosamente, distribuiu as características que o tornavam tão especial. O seu modo de vestir, compor e falar foi partilhado por todos, imitado por todos. As diferenças gradativamente se anularam. A distância que, no palco, mantinha Roberto Carlos afastado mas ao mesmo tempo ao alcance de seu público dissolveu-se. Confundindo-se com o público, o ídolo adquiriu forma humana..."

Marialice escreveu este texto quando o programa Jovem Guarda começava a dar os primeiros escorregões de audiência. Mais de 40 anos depois, Roberto Carlos ainda está aí. Firme, forte, o artista mais tocado em toda a história da música brasileira. Daí vocês tirem as teses dos sociólogos sobre a TV, sobre a violência, sobre a educação, sobre a política internacional e verão que a sociologia, na maioria das vezes, é um exercício de chutologia aplicada. E com um jargão insuportável.

sábado, 5 de junho de 2010

OS IMPOSTOS, O ESTADO, UMA JOVEM DIARISTA E O ARTIGO DE SARDENBERG

Lula elogiou a carga tributária de quase 40% do PIB dizendo que sem ela, não há Estado. Bom, com este índice também não temos. Então, como ficamos.

Conheço uma jovem diarista que está grávida e por um motivo desconhecido, está sangrando. Ela foi para o Hospital Getúlio Vargas (Estadual) na Penha. Mandaram-no para a maternidade Herculano Pinheiro (Prefeitura). Acabaram por encaminhá-la ao Hospital de Bonsucessp (Federal). Lá, disseram que não poderiam fazer a ultrassonografia porque… Bem, porque era feriado e ninguém é de ferro, certo? Isso tudo num país onde segundo Lula, a Saúde está à beira da perfeição.

Se acontecer o pior ao bebê da jovem diarista perder o bebê, de que adiantou o Estado? Para fazê-la perder a criança?

Defendo um Estado enxuto, mais eficiente. Sempre disse que pagamos impostos noruegueses, mas recebemos serviços do Sudão.

Por tudo isso, vale a pena ler este artigo de Sardenberg que fala do tamanho do nosso Estado: caro, ineficiente e que te obriga a pagar duas vezes pelos serviços que ele não consegue, nem de longe, te oferecer. E ainda põe em risco a vida de bebês, a quem ele jura defender obrigando as pessoas a colocar cadeirinhas em carros particulares.

PS – A jovem perdeu o bebê.

*     *     *

PAGAMOS IMPOSTOS EUROPEUS, RECEBEMOS COMO…

Carlos Alberto Sardenberg – O Globo, 3 de junho de 2010.

Milhões de trabalhadores brasileiros, com carteira assinada, pagam duas vezes pela assistência médica. Pagam impostos, com o que financiam o sistema público (SUS), e depois compram planos de saúde privados. São mais de 35 milhões de brasileiros pagando aqueles planos, o que é um bom indicador do grau de confiança (ou de desconfiança) no SUS.

Vale também para escolas. O trabalhador recolhe impostos para financiar a educação pública e acaba colocando seus filhos em escolas particulares.

Como os impostos são obrigatórios, as famílias, com frequência, buscam os serviços públicos apenas porque não lhes sobra dinheiro para comprar os serviços privados.

Assim, que tal oferecer a opção?

Se a pessoa aplica 200 reais ao mês em um plano de saúde, tem um desconto desses mesmos 200 nos impostos que paga, então perdendo o direito ao atendimento público. Idem para escolas.

Ou para aposentadorias? Do mesmo modo, a pessoa seria dispensada do pagamento do INSS se aplicasse o dinheiro em planos de aposentadoria privados.

Todos poderiam escolher, e até se estabeleceria uma competição. Os governantes teriam de se esforçar para oferecer serviço público de qualidade, pois isso levaria as pessoas a pagar mais impostos. E as companhias privadas teriam de provar que são capazes de oferecer coisa melhor pelo mesmo preço. (Naturalmente, o Estado teria de exercer o papel de regulador desses mercados privados.) Não seria este um bom tema para a campanha eleitoral?

Mas dificilmente aparecerá. As lideranças políticas, da esquerda à direita, no fundo acham que o brasileiro não sabe tomar conta de si mesmo. Acham, por exemplo, que, não havendo a aposentadoria pública e obrigatória, o cidadão acabaria se esquecendo de fazer sua poupança e daria problemas ao governo na velhice. (Mas, na China, por exemplo, a poupança das famílias é extremamente elevada porque não há aposentadoria pública - e o comunismo é lá, não é mesmo?)

No geral, as lideranças brasileiras discutem sobre como gastar o dinheiro dos impostos, não sobre como reduzi-los. Na última terça-feira, por exemplo, o presidente Lula fez uma defesa enfática da elevada carga tributária brasileira, pois, em sua opinião, Estado que arrecada pouco não faz nada.

Reparem: o dinheiro que vai para o governo sai do bolso das pessoas e do caixa das empresas. Se parte disso não fosse para o governo, pois algum Estado sempre será inevitável, o que as pessoas e empresas fariam com esses recursos? Consumiriam, investiriam, fariam poupança, cuidariam de sua vida e de seus negócios, gerariam mercado e empregos.

Para Lula, porém, só o Estado é capaz de cuidar disso e só há bons serviços sociais onde a carga tributária é elevada. Deveria estar pensando nos países europeus ricos e velhos, que de fato pagam impostos pesados.

Mas são países que já enriqueceram, por isso podem pagar mais, e, mais importante, oferecem serviços de elevada qualidade.

O Brasil, país jovem e de renda média, não pode pagar imposto de rico e velho. Ou seja, a carga tributária brasileira, comparada à dos países emergentes parecidos, é absurdamente elevada.

Considerem, por exemplo, a carga sobre um salário de R$ 2 mil mensais, para um trabalhador solteiro, com carteira assinada. Levando em conta apenas os impostos de renda e seguridade social, a empresa recolhe 20% de INSS e mais 7,8%, assim divididos: 2,5% por conta do Sistema S (Senai, Sesc, etc.); 2,5% para o salário-educação; 2% de contribuição para acidentes e doenças do trabalho (RAT); 0,6% para o Sebrae; e 0,2% para o Incra (sim, é isso mesmo que o senhor e a senhora estão pensando, a folha de salários financia a reforma agrária). Portanto, a empresa paga R$ 2 mil, mais R$ 440 para o INSS e mais R$ 156 para o Sistema S, no total de R$ 2.596.

Já o trabalhador desconta direto no contracheque mais 11% para o INSS, e o Imposto de Renda, conforme a tabela progressiva. No caso, R$ 2 mil menos R$ 21 de IR e R$ 220 de INSS, ficando com R$ 1.759.

Tudo somado e subtraído, o governo leva nada menos que R$ 837 em cima de um salário de R$ 2 mil. Ou, quase 33% do total pago pela empresa.

Na Alemanha e na França, a carga chega a 50%. Mas na Coreia do Sul, que ficou rica nas últimas décadas, não passa de 20%. Na Austrália, no Japão e nos EUA, é menos de 30%. E não consta que os serviços públicos lá sejam piores que os nossos.

Pagamos impostos como europeus ricos e temos serviços como... escolham a comparação.

É o resultado do sistema que não deixa as pessoas escolherem.

Não seria este um bom tema para a campanha eleitoral?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

PESQUISA MOSTRA DANOS DAS COTAS RACIAIS (Editorial – O Globo, 3 de junho de 2010)

Quanto mais se usam dados objetivos e referências históricas em debates contaminados por emoção, partidarismo, política e ideologia, menor o risco de se cometer graves equívocos na hora de tomar decisões. No caso da proposta de instituição de cotas raciais visando à criação de uma reserva de vagas para negros no ensino superior, este cuidado é imprescindível, pois estão em jogo questõeschave: da qualificação de profissionais, imprescindível para o país poder competir no mundo globalizado, à preservação de características saudáveis na formação de uma sociedade miscigenada, como a brasileira, sem as tensões raciais verificadas, por exemplo, nos Estados Unidos.

Esta proposta, importada ainda na Era FH dentro das chamadas ações afirmativas, ganhou mais força na gestão Lula, porque, nela, a militância racialista aumentou a presença no Executivo em Brasília. Com articulações no Congresso, o lobby conseguiu fazer tramitar entre deputados e senadores uma lei específica de criação dessas cotas e um projeto de estatuto, o qual estende a reserva de mercado em função da cor da pele à publicidade, à concessão de emprego no setor público, entre outras aberrações.
Na discussão que se trava de maneira mais acesa desde o início do atual governo, já existe um rico acervo de argumentos fundamentados contra as cotas raciais, mecanismo, inclusive, já revisto pela Justiça dos Estados Unidos, onde elas surgiram e se firmaram.

Pesquisa feita pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), primeiro estabelecimento de ensino superior do país a aderir ao sistema de cotas raciais, contribui para este acervo. Realizado a partir dos dados do vestibular feito pela universidade em 2009, o levantamento comprova uma das mais cortantes críticas às cotas: criadas para supostamente corrigir injustiças, as cotas impedem a entrada no ensino superior de pessoas mais bem preparadas. É a confirmação do perigoso abandono do princípio do mérito.

Das 2.396 vagas abertas naquele vestibular para cotistas, apenas 1.384 foram preenchidas, pois os candidatos não conseguiram obter a nota mínima: 2. Mesmo que a relação entre candidatos cotistas e vagas fosse quase um para um, enquanto entre os não cotistas 11 disputaram cada vaga. Entenda-se: se não são exigidas maiores qualificações aos cotistas, muitos merecedores de entrar na universidade ficaram de fora. Ainda com base na mesma pesquisa, a Uerj tenta justificar as cotas afirmando que o índice de reprovação é maior entre os não cotistas. A constatação, no entanto, tem importância relativa, pois o dano maior, o de impedir o desenvolvimento de talentos apenas porque eles não são negros, já foi causado no vestibular.

Também não surpreende que, em várias disciplinas, cotistas tenham notas inferiores às dos demais estudantes. Até o reitor da Uerj, Ricardo Vieiralves de Castro, em entrevista ao “Jornal Nacional”, admitiu que ficam de fora estudantes mais bem preparados. Mas ele continua a defender as cotas, mesmo que haja tantas evidências de que, ao reduzir a importância do princípio do mérito em nome da “raça”, o Brasil não terá profissionais qualificados como a realidade requer e, como inadmissível subproduto, já começa a inocular o racismo no convívio cotidiano da juventude.

Que esta pesquisa ajude o Congresso e o STF, onde o tema tramita, a refletir.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O PLANTÃO DO INSPETOR BRASÍLIO, POR JOÃO UBALDO RIBEIRO (O Globo, 30 de maio de 2010)

Começo de noite quieto, no Comando Especial de Proteção ao Cidadão. Talvez quieto demais, pensou o Inspetor-Chefe Brasílio, olhando o relógio. Já passava das nove, nenhuma ocorrência marcara o plantão até então modorrento e Brasílio, com um bocejo, se preparava para tomar um cafezinho, quando o telefone tocou e, por alguma razão, ele soube imediatamente que seria uma daquelas noites.

O telefonema era lacônico. Alguém falava rapidamente, ansioso por desligar, voz tensa, fôlego curto. Tabagista em ação na Vila Madalena. Dois tabagistas, aliás, ambos fumando um cigarro atrás do outro e desafiando as famílias presentes, num pequeno restaurante frequentado por boêmios e artistas.

Brasílio suspirou, fez um aceno para seu auxiliar. Sabia o que ia encontrar, delinquentes calejados e cínicos, capazes dos truques mais sórdidos para conseguir dar vazão a seus baixos instintos. Rumou para a porta apressadamente, sem nem parar enquanto pegava o paletó. Mas, já chegando à viatura, voltou. Esquecera o fio de prumo e foi com alívio que o enfiou no bolso, apalpando depois o volume com um tapinha.

Lá chegando, estacionou a viatura rente à calçada onde estavam os dois meliantes, a freada brusca fazendo os pneus cantar. Alguém os havia avisado da chegada do Comando e eles, cinicamente, saíram para a calçada para escapar ao flagrante, mas não contavam com a experiência de Brasílio. Não era, por assim dizer, seu primeiro tabagista.

— Freeze! — gritou Brasílio, apontando a arma e fazendo sinal para que Dedurão, seu auxiliar, segurasse imediatamente os malfeitores. — Quer dizer, não se mexam! Reconheceu num dos dois fumantes o rosto pervertido de Joel Pitadinha, reincidente em praticamente todos os bares e restaurantes da Vila. O canalha sorriu insolentemente, à aproximação dos policiais e não esperou que lhe falassem.

— Eu estou na calçada — disse ele, cuspindo de lado.

— Ah-ha! — retrucou Brasílio. — Mas debaixo da marquise!

Confusão, quase tumulto. Depois de algum esforço e com o bandido imobilizado exatamente no mesmo local onde se encontrava à chegada da viatura, o fio de prumo, pendurado na marquise acima da cabeça do infrator, deu seu veredicto implacável: tanto a brasa do cigarro quanto a boca e o nariz de Joel Pitadinha estavam claramente a 14 milímetros para debaixo da marquise. Quanto ao outro capturado, uns escandalosos 11 centímetros.

Enquanto os algemava, Brasílio pensou com certa melancolia em como logo Pitadinha estaria solto, para de novo tabaquear acintosamente, São Paulo afora. Um irrecuperável — e Brasílio se perguntou mais uma vez se a prisão perpétua ou a pena de morte, em certos casos, não seriam indicadas, num triste, porém verdadeiro, reconhecimento da torpeza a que muitas vezes desce o ser humano. Mas não pôde continuar a pensar, porque, assim que os tabagistas foram enfiados no camburão que convocara, o rádio da viatura emitiu seu chamado metálico.

Palmadista no Morumbi! Aparentemente fora de si, depois que seu filho de sete anos tocou fogo na caixinha onde guardara seus adaptadores de tomada raríssimos e irrecuperáveis e valendo uma fortuna no mercado negro de tomadas, um homem transtornado dera duas palmadas na criança, na presença de uma vizinha com quem brigara antes e que o denunciou. Brasílio se enfiou na viatura e pegou imediatamente o rádio. Precisava de reforços e foi com alívio que soube que Rocha Pirado, o psicólogo do Comando, estava a caminho.

Ao chegarem, o palmadista ainda se encontrava muito nervoso, segurando o filho pelo braço e ameaçando torcer-lhe a orelha, se os agentes do Comando se aproximassem. Sim, tudo indicava que ele seria capaz desse ato extremo, do qual o menino podia jamais vir a recuperar-se, não convinha facilitar.

Mais um trabalho para Rocha Pirado, que, depois de uma série de manobras delicadas, conseguiu chegar perto do desesperado o suficiente para começar a lhe fazer uma série de perguntas. Depois de cerca de meia hora de trabalho, o homem cedeu. Se Pirado prometesse calar a boca, ele se entregaria, o que de fato aconteceu. Cabisbaixo, cobrindo o rosto com um casaco para evitar ser reconhecido, o palmadista foi recolhido, na companhia de sua esposa e cúmplice.

Brasílio olhou para o rostinho do menino socorrido. Agora ele ia ficar livre de torturas, sob os cuidados zelosos de uma instituição pública para menores, enquanto seus desorientados pais passariam uma temporada num manicômio judiciário, para exames e tratamento das perversões já diagnosticadas por Rocha Pirado. Só momentos como esse faziam valer a pena o sacrifício de ser um atribulado agente da lei.

Mas a vida não para, o crime não descansa e eis que o rádio chama novamente. Do outro lado, o detetive Nuguete, com um recado macabro. Restos de um hambúrguer meio mordido haviam sido achados numa escola em Perdizes. "Prepare-se", disse Nuguete. "Não é uma visão bonita." Brasílio suspirou outra vez. Já ouvira falar que os alunos daquela escola consumiam secretamente comidas proibidas e havia homens seus seguindo os passos da quadrilha traficante de jujubas que lá estava agindo. Entrou na viatura, ligou a sirene. No rádio, notícias sobre três assaltos com quatro mortos, dois atropelamentos por motoristas bêbados com seis mortos cada e um sequestro relâmpago com um morto só.

Brasílio lembrou com orgulho que nada daquilo era de sua alçada.
"Comigo, tudo bem", pensou. "Comigo, o cidadão está protegido."

quarta-feira, 2 de junho de 2010

A CADEIRINHA DO BEBÊ

E segue o Estado em seu comovedor esforço de criminalizar toda a população. Sim, porque é tanta regrinha, tanta coisinha pra lembrar que será impossível num dia que um sujeito se lembre de todas as suas obrigações. Resultado: levará uma multa nos cornos pra deixar de ser babaca. Além de ser visto pelas otoridades como um pária, um elemento perigoso para a sociedade.

Agora é a vez da cadeirinha de bebê nos bancos traseiros dos carros. Lógico que me fiz algumas perguntas:

1 – Taxistas serão obrigados a ter a cadeirinha? Ou os casais que não têm carro serão obrigados a comprá-la?

2 – Se um bebê quiser mamar no automóvel – e isso acontece direto – e a mamãe tirá-lo da cadeirinha, o papai corre o risco de ser multado?

Bom, um sujeito daqueles gente boa não poderá levar o filho da vizinha do hospital em caso de emergência se não tiver a cadeirinha. Neste caso, o Estado se responsabiliza por quem?

Ah, são regras de segurança adotadas no mundo inteiro? Caguei. São estúpidas. No mundo inteiro.

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE “O RETRATO DE DORIAN GRAY”, DE OSCAR WILDE

Relendo o clássico deste irlandês, resisto à tentação de colocar um robe de chambre e sentar meio deitado num puf de ráfia e degustar suas delicadas palavras. Sim, há uma linha muito tênue que separa o requinte da boiolice.

A ideia da eterna juventude e a obsessão com esta fase da vida é o ethos deste romance. Isso no século XIX. Dá uma curiosidade saber o que Wilde escreveria na era do botox e da lipoaspiração.

O detalhismo de Wilde em relação a itens como decoração e vestuário, mais do que uma descrição do ambiente elegante da época, me deu uma ideia de seu homossexualismo: só mesmo sendo mulher ou gay pra se prestar atenção em tantas coisinhas e bugigangas…

ISRAEL: O ÚNICO CASO DO JORNALISMO ONDE NÃO É USADA A PALAVRA “SUPOSTO”

Estando certo ou errado, Israel sempre será culpado. Nas cartas do Globo, ainda que um ou outro leitor já reconheça o truque dos “pacifistas”, há quem chame o que Israel fez com o trenzinho da alegria turco do Hamas de “terrorismo”. Gostaria de saber o que essa gente pensa de Bin Laden.

Falar do caso da flotilha sem saber ou sequer pesquisar quem é Bülent Yildirim é simplesmente desonestidade intelectual.

Cadê comboios humanitários para Cuba? Pra Coreia do Norte? Pro Irã? Nada disso! Vamos encher o saco de Israel, que é o “pele” do mundo. Além do mais, vai ter a imprensa do mundo inteiro contra os reacionários de Israel. Figurinha repetida.

E o Brasil, aquele país que não se mete em problemas dos outros países? O pessoal mais sorvete-na-testa da diplomacia mundial saiu logo condenando Israel. Acho que essa histeria já está beirando o antissemitismo, mas deixa pra lá.

Pra completar, tinha até cineasta brasileira, o que é um oxímoro: ou se faz cinema ou se é brasileiro.

Enfim, é o único caso do jornalismo brazuca onde não é usada a palavra “suposto”. Isso só vale para mensaleiros, aloprados, assassinos, pedófilos… Essa gente goza do benefício da dúvida. Israel, não. Mesmo com todas as provas de que os “humanistas” atacaram os soldados israelenses, Israel só tem direito ao malefício da certeza…

O GUETO DOS 5%

Fiquei um tempo sem acessar a web de uma forma mais constante e fico sabendo por Reinaldo Azevedo que Ricardo Kotscho está sonhando com um Gueto de Varsóvia para os 5% que ainda não foram tocados pelo messianismo lulístico. Não demora e teremos campos de concentração para os dissidentes da Nova Era liderada pelo grande Çábio.

A face antidemocrática desse pessoal se mostra rápidol. Kotscho e companhia não resistem a 5 minutos de populismo…